Papo Kbça

Texto: Paula Desgualdo
Foto: Julia Motta

Algumas bibliotecas são espaços públicos. Logo, elas pertencem a você. Tem gente que já se deu conta disso e está ocupando o vão das prateleiras com vozes, música e atitude.

No segundo sábado de cada mês, a biblioteca municipal Cora Coralina, em Guianases, no extremo leste de São Paulo, vira palco de poetas, dançarinos, instrumentistas, escritores e rappers.

Tem varal poético, performance e caldinho de feijão – com cuidado para não sujar os livros. E tem, principalmente, gente que entende o espaço público como um lugar que deve ser ocupado pelas pessoas.

É assim o Sarau de Arte Maloqueira, ou só Sarau da Maloca, organizado pelo coletivo de mesmo nome. “Nossa proposta é a apropriação dos espaços públicos, institucionais e alternativos, e a biblioteca é mais um deles”, explica Renildo Oliveira, 27 anos, integrante do grupo e jovem ativo da comunidade (como quis se apresentar nesta reportagem).

Nas últimas décadas, a relação dos jovens com a biblioteca vem passando por transformações importantes. “Por muito tempo, foi algo sufocante, porque ir à biblioteca significava fazer consultas solicitadas pelos professores para algum trabalho ou prova”, lembra William Okubo, coordenador da Coleção de Literatura e Humanidades da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo. Basta uma visita à biblioteca estadual Parque de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro, para ver que algo está mudando.

“POR MUITO TEMPO, A BIBLIOTECA FOI ALGO SUFOCANTE, PORQUE SIGNIFICAVA FAZER CONSULTAS PARA TRABALHOS E PROVAS”

Inaugurada em 2010, no meio de um complexo com cerca de 15 favelas, ela é toda feita de vidro e não segue à risca aquela história de manter silêncio. “Mais que um local para leitura, é uma área para estar junto”, conta o diretor Alexandre Pimentel.

Pensar em um espaço que dialoga com o território parece ter aproximado o público. Vários projetos foram propostos pelos jovens da própria comunidade, que começaram a aproveitar o lugar para realizar outras atividades. Todas as noites, depois das 20h, rola um ensaio do pessoal do hip hop, e o sarau que já existia na região há 12 anos agora acontece na biblioteca.

“São duas questões fundamentais: o que fazer na região de periferia e qual é o papel da biblioteca moderna”, coloca Alexandre. Embora já tenha nascido com uma proposta de integração, a Manguinhos não é a única que se preocupa com a interação com a galera. Dê um passeio pela programação de outras bibliotecas e você vai encontrar atrações como teatro, oficinas, dança e cinema.

Na Viriato Corrêa, na Vila Mariana, em São Paulo, tem a Fantástica Jornada Noite Adentro, uma sequência de atividades que acontece durante a madrugada. “A tendência é que a biblioteca se torne, além de fonte de informação, um lugar para trocar ideias, fazer críticas e dar sugestões”, conclui Okubo. Agora que caretice não é mais desculpa, cola na biblioteca. \o/

 

#FICADICA

Na real, oferecer opções de lazer e cultura é dever do poder público. Suprir a ausência delas na região onde você vive pode não ser tarefa das mais fáceis, mas sem dúvida começa com o diálogo. Se você tem uma ideia legal para a biblioteca do seu bairro, o primeiro passo é organizar a proposta e conversar com o coordenador local.

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