Por Marina Martins, 24, moradora da Penha, zona leste de São Paulo

Lembro a primeira vez em que precisei tomar uma anestesia, para tirar um dente. Ainda criança, perguntava para a minha mãe se eu deixaria de sentir para sempre uma parte do meu rosto ou se a minha boca ficaria deformada.

Quase dez anos depois, precisei fazer uma endoscopia, um processo simples e rápido, mas que exige a utilização de um sedativo. Porém, para a minha surpresa e desconforto, a analgesia não funcionou. Adormecida, pude sentir cada parte do procedimento, sem conseguir avisar a equipe médica.

A anestesia geral tem como papel inibir os impulsos de dor comandados pela medula espinhal. Mas nem sempre ela funciona. Em alguns casos, como no Despertar Inadvertido Durante Anestesia (Dida), o paciente permanece consciente por alguns momentos. Há quem seja capaz de ouvir, ver e até mesmo sentir dores durante o processo médico. Mas esses casos são raros.

Longe das macas e agulhas e do cheiro do álcool, há outras formas de sedação. Camufladas não mais em líquidos mágicos capazes de nos livrar das dores físicas, mas em ambientes de trabalho, na fila do pão matinal, na mesa do almoço de domingo e, principalmente, nos jornais e na televisão.

A anestesia do choque social está presente e cada vez mais enraizada.

Quantos de nós não saem para trabalhar e passam despercebidos por algum morador de rua? Essas mesmas pessoas, porém, muitas vezes transbordam os olhos de lágrimas em manchetes que retratam a miséria no Haiti ou em Serra Leoa.

É fácil identificar personagens do nosso cotidiano que exercem esse papel. Tio Nestor, por exemplo, servidor público aposentado, aprecia tecer comentários longos e detalhados sobre tragédias internacionais durante as reuniões de família. Ainda antes de servirem a refeição, seu sangue ferve ansioso pela reação dos parentes. Possui, no entanto, uma estranha compaixão seletiva com dramas nacionais. De “vagabundo”, jamais sente pena. Seu coração apenas bate forte para o “cidadão de bem”.

Temos sim, ainda, um certo talento para a comoção. Principalmente quando se trata de grandes acontecimentos, grandes tragédias. No último mês, pudemos acompanhar a perturbação mundial com o terremoto que ocorreu no Nepal -devastando um país inteiro e deixando mais de 8 mil pessoas mortas e aproximadamente 18 mil feridos. Foi incontável o número de pessoas que se prontificaram a oferecer assistência às vítimas, mesmo em outros países, como o Brasil.

Em contraponto, quase no mesmo período, os brasileiros assistiram ao massacre físico e moral que os professores e servidores estaduais do Paraná sofreram durante o protesto contra a votação do projeto que autorizava o governador Beto Richa a usar recursos do fundo de pensão da Paraná Previdência como parte das medidas de austeridade fiscal. O confronto foi um dos maiores da história recente do país entre professores e a Polícia Militar.

Acompanhamos professores sendo brutalmente agredidos por policiais militares que usaram gás lacrimogêneo, cães de guarda, balas de borracha e bombas de efeito moral.

Diante de tal cenário, houve pouca comoção. Não se viu ali uma tragédia. Para muitos de nós, também não existe tragédia alguma em relação às estatísticas de abuso sexual cada vez mais em alta no Brasil. E, para outros tantos, tampouco há tragédia observável em uma Câmara dos Deputados tão retrógrada como a nossa.

Somos uma sociedade incapaz de doses maciças de indignação. Selecionamos aqueles que precisam dos direitos humanos, ainda que sejamos todos indivíduos. Possuímos compaixão com um limite de distância já estipulado para que nada perfure a nossa bolha da irrealidade.

Mas, mesmo dentro dessa bolha, é preciso respirar. Não meramente o oxigênio. É preciso respirar o outro.

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