Por Alessandro Junior,  18 anos, morador do Jardim Coimbra, zona leste de São Paulo

Quem nunca trocou pode achar estranho, mas fotos íntimas – os nudes – são enviadas bem antes de ter esse nome: por carta, pelos antigos SMS e, claro, agora pelo Snapchat.

Nos últimos meses, mais gente ficou sabendo desse hábito quando fotos de atrizes como Scarlett Johansson e Jennifer Lawrence acabaram vazando e até um Tumblr foi criado, inspirado na frase “mande nude”.

Será que aplicativos como o Snapchat, que promete apagar as fotos depois da visualização, ajudaram a popularizar os nudes? Não existe nenhum mecanismo para mensurar isso, mas não dá para negar que o app proporcionou mais confiança às pessoas.

Victor Andrade Curzio, 23, trocava nudes via MMS – aquelas mensagens de celular com arquivo de mídia – quando os aplicativos ainda não eram tão acessíveis. Segundo ele, era uma missão difícil.

As imagens demoravam muito pra chegar, coisa de duas horas no melhor dos casos. E checar as mensagens também não era tarefa fácil: ele não sabia quando era uma mensagem tradicional ou a aguardada foto.

Já no Snapchat, funciona assim: você se cadastra, adiciona outras pessoas e pode enviar fotos, vídeos ou mensagens de texto para elas. O diferencial é que tudo o que você coloca lá é apagado depois de um tempo que você escolhe: de 1 a 10 segundos.

O que você manda só pode ser visto uma vez e as “histórias” – fotos que podem ser vistas mais de uma vez – e mensagens “sobrevivem” por 24 horas.

Ele permite que você escolha quem vai ver cada publicação sua, como se fosse uma mensagem privada do Twitter ou uma mensagem com um contato do WhatsApp.

Foto: Alessandro Junior

Mesmo com tudo isso, não existe nude totalmente seguro. O Snapchat até te avisa quando alguém tira uma print da foto recebida – ou seja, fotografa a foto e aí pode guardar o que deveria ter fim. Só que existem aplicativos e truques que conseguem burlar essa função, permitindo que alguém eternize aquele momento sem que você saiba.

Entendeu o perigo?

O Snapchat, porém, não serve só para mandar nudes. Lais Garbulho, 17, diz não trocar fotos íntimas. Para ela, o aplicativo é divertido para mandar uma foto de algo engraçado, pedir a opinião das amigas sobre a roupa que irá usar no rolê e até mesmo para conversar mandando sequências de fotos com legendas.

Letícia Farias, 18, usa o aplicativo para se aproximar dos amigos. Ela acompanha a rotina dos ex-colegas de classe e mata a saudade, mesmo que virtualmente.Letícia costuma mandar um Snap quando está em lugares divertidos como parques e festas.

Para o psicólogo Luiz Paulo Wigderowitz a exposição na internet – que rola na publicação de selfies e nudes – é “uma forma de jovens se auto afirmarem no mundo, no seu meio, sua identidade e necessidade de se expor e declarar ao mundo: “eu estou aqui, eu existo, eu sou bom, sou bonito, sou feliz”, onde na maioria lê-se “sou um bom produto”.

Foto: Nayra Lays
Foto: Nayra Lays

O que acontece no Snapchat, fica no Snapchat?
Se rolar aquele clima pra mandar um nude, é preciso pensar bem se você confia na pessoa para quem está enviando a foto. Não mostrar o rosto também é uma forma de garantir um pouco mais o anonimato.

E, se liga, a exposição pode gerar problemas sérios.

Apesar dos casos de pornô de vingança (revenge porn) serem considerados crime, meninas e mulheres são expostas de forma covarde. Garotas mudam de escola ou até mesmo de cidade, perdem emprego e sofrem problemas psicológicos quando suas imagens são expostas sem permissão, como o caso de uma estudante de 21 anos revelado pela GloboNews.

O machismo também se mostra brutalmente presente quando o tema é nude. Eduardo Pinheiro Monteiro, investigador da Polícia Civil e especialista em Crimes Eletrônicos, estima que cerca de 90% dos casos de pornografia de vingança atingem mulheres, com idades entre 12 e 30 anos como mostra essa reportagem da Gazeta.

E segundo dados da ONG Safernet, o número de casos registrados de vazamentos de “nudes” quadruplicou em dois anos no Brasil. No ano passado, 224 pessoas procuraram o serviço da organização de defesa de direitos humanos na internet. As mulheres representam 81% das denúncias.

Algumas meninas que passaram por isso resolveram se juntar contra o vazamento das fotos no projeto Consent (Consentimento), que busca combater a agressão sexual e a cultura de estupro através da sensibilização, educação, além de promover o consentimento, essencial para uma relação saudável.

O que acontece no Snapchat, em geral fica no Snapchat. E você é responsável por isso. Se recebeu uma foto de alguém, guarde ela só pra você.

* reportagem e texto orientados por Daniel Lisboa

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