Por Ludimila Honorato

Sexta-feira à noite, praça de alimentação de um shopping na zona leste de São Paulo. Mais ou menos 20 pessoas, entre jovens e adultos com diferentes níveis de surdez, se reúnem depois do trabalho ou da escola para conversar.

Eles fazem parte dos cerca de 5% da população brasileira que tem deficiência auditiva, segundo o Censo 2010, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). São 9,7 milhões de pessoas, sendo que 1,7 milhão apresenta grande dificuldade para ouvir e 344,2 mil são surdas.

Delas, cerca de 1 milhão são crianças e jovens até 19 anos. Era com esses que eu queria conversar para saber como é o dia a dia deles e entender se há uma bolha que os mantém quase que à parte da sociedade ouvinte. Nossa hipótese é que isso rolaria pela dificuldade de comunicação.

As barreiras começam no núcleo familiar, pois cerca de 95% dos surdos são filhos de pais ouvintes, segundo a psicóloga Alessandra Giacomet.

É o caso de João, 15, que tem dentro de casa apenas a irmã que sabe um pouco de Libras, a língua brasileira de sinais, e serve de intérprete para os pais. “Se não existe comunicação em casa, imagina fora. Há interação entre surdos e ouvintes, mas ela pode não se aprofundar por falta de comunicação”, explica Marcos Galhardo, coordenador pedagógico de uma escola para surdos.

A distância de entendimento inibe a comunicação entre os diferentes até em questões simples do dia a dia.

João entendeu isso aos 13 anos, depois de comer o lanche errado por vergonha e falta de conhecimento sobre como avisar que não era aquele sanduíche que tinha pedido. Resolveu buscar ajuda de um intérprete para aprender a falar algumas coisas e conseguir expressar o básico. Hoje, está acostumado a ter que escrever e falar um pouco ou apontar no cardápio o que quer.

Ainda assim, a vida social de João acontece em grupos bastante restritos e, geralmente, de jovens surdos. Morando em São Paulo, ele frequenta os encontros de surdos que rolam em diferentes locais da cidade, cada um num dia da semana.

Num deles conheceu Alanny, 22, que acredita conhecer todos os surdos da capital paulista, ainda que afirme sair pouco por estar focada nos estudos. No 1º ano do colegial, ela relata dificuldade em entender o conteúdo mesmo com ajuda de intérprete e não pretende entrar na faculdade. “É muito difícil”, responde ela, resumindo o que sente na sala de aula e na tentativa de me explicar o que vive.

Alanny tem um pouco de audição e fala, então muitas vezes se torna intérprete dos amigos que não falam. Colega de surdos e ouvintes na escola, ela prefere se comunicar só com surdos, em Libras. “Já falaram pra eu me formar em intérprete, mas não entendo bem o que o ouvinte fala. É muito difícil.”

Gabriela, 14, fala, mas preferiu conversar comigo por meio do intérprete. Foto: Ludimila Honorato
Gabriela, 14, fala, mas preferiu conversar comigo por meio do intérprete. Foto: Ludimila Honorato

Não deveria ser assim. A Língua Brasileira de Sinais é a 2ª língua oficial brasileira há mais de dez anos (pela lei 10.436, de 2002) e deve haver tradutor e intérprete de Libras em todos os órgãos públicos (pelo decreto nº 5.626/2005).

Gabriela Florentino, 14, que também ouve e fala um pouco, deixa a comunicação oral mais pra família. Fora de casa, ela arrisca algumas palavras na hora de comprar maquiagem, coisa que ama, mas acredita que em outros lugares não vão entendê-la.

O coordenador explica que ela usa o português sinalizado: faz sinal do batom e fala a palavra vermelho, por exemplo. Em casa, com o pai ou irmão que não sabem Libras, ela fala e ainda usa classificadores, que é fazer o formato do objeto com as mãos.

Geralmente — até pela idade —, ela sai sempre com a mãe, que é professora de química e física pra surdos, ou de algum outro parente que saiba Libras. Assim, fica a cargo deles a intermediação da comunicação com os outros.

Durante nossa entrevista, Marcos ajudava como intérprete e pediu pra ela conversar diretamente comigo. Gabriela se recusou, reafirmou que é surda e precisa de intérprete e não soube me explicar por que não quis se comunicar diretamente comigo. Marcos acredita que ela só fala em casa porque é onde se sente à vontade e segura.

Os amigos são basicamente a galera da escola. Como a maioria dos surdos nascem em famílias ouvintes, Marcos diz que “é melhor eles ficarem aqui na escola do que ficar em casa e não ter com quem conversar.” Esse é outro motivo para os encontros semanais pela cidade.

Erik e Joseane acham que o contato com ouvintes gera troca de experiências. Foto: Ludimila Honorato
Erik e Joseane acham que o contato com ouvintes gera troca de experiências. Foto: Ludimila Honorato

A psicóloga Alessandra — que desenvolveu uma tese de doutorado sobre como os surdos observam e interpretam o mundo — diz que quando estão entre iguais, eles têm a possibilidade de ser quem são. “Frequentemente, os surdos encontram dificuldades para estabelecer diálogos mais profundos com seus familiares, então buscam na comunidade surda um lugar para se sentirem acolhidos e pertencentes a um grupo.”

Também tem quem veja a saída da bolha como valiosa, apesar de difícil. Erik Honorato, 18, é surdo, mas vive num ambiente diverso: sabe bem a língua portuguesa, então se comunica bem de forma escrita, e também tem amigos ouvintes que sabem Libras.

Erik acredita que o contato resulta em aprendizado e troca de experiências. “Existe uma proximidade entre os dois mundos, mas acho que o interesse é mais do ouvinte”, ele percebe, principalmente pelo fato de grupos quererem aprender Libras.

Ana Lua Oliveira, 20, sente falta de informação disponível para os surdos. Poucas notícias e informações chegam até eles em Libras, o que os mantém fora de muitos debates, à parte. Por conta disso — e de adorar fazer vídeos —, resolveu criar um canal no YouTube voltado para os jovens surdos.

A busca por informação tem demanda, tanto que ela alcançou mais de 340 mil visualizações em quase 3 anos de página.

“Explico qualquer coisa que os surdos precisam saber porque os jornais não têm intérpretes, não mostram as informações. Falo de violência, por exemplo, ou de qualquer coisa que precisa de atenção.”

surdos-ana-luaO canal atraiu também ouvintes interessados em aprender Libras, e Ana construiu a ponte. Passou a legendar os vídeos além de usar a língua de sinais e agora atinge os 2 públicos.

A interação nem sempre é no bom sentido e também rolam comentários preconceituosos e negativos sobre o canal. A reação não é necessariamente uma novidade do mundo virtual. Em São Lourenço, a cidade com pouco mais de 40 mil habitantes em Minas Gerais onde mora, Ana disse já ter sofrido bullying na escola e até enfrentado tentativa de agressão física.

“Algumas pessoas associam a surdez a um possível rebaixamento intelectual, mas isso é um engano e, quem sabe, representa os estereótipos e crenças sociais criadas por todos nós, enquanto sociedade”, expõe a psicóloga Alessandra Giacomet. A questão é que os surdos têm possibilidades diferentes, não menores, e é preciso dar o devido acesso a eles.

A busca dos jovens surdos por formar grupos fortes de iguais, nesse contexto, é uma forma de se proteger tanto de agressões quanto da dificuldade de comunicação.

Publicado originalmente na Na Responsa!

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