Texto e fotos: Larissa Valença

Quando chegou ao Brasil, com a mesma idade de Julia, Jorge Alvaro ficou 1 ano sem ir a escola. Não saber português o deixava inseguro, então preferiu primeiro aprender por conta própria antes de voltar a estudar.

Cristian Ramirez, que veio aos 10 da Bolívia, ficou 6 meses mudo na escola, onde sofreu agressões físicas e verbais. Ele também lembra que os bolivianos sempre eram assaltados na porta do colégio público localizado na Penha, zona leste de SP.

Alan Julio, 19, sentia mais preconceito na escola por ser homossexual do que pela nacionalidade, mas sofria agressões juntando as 2 características. “Veio da Bolívia pra ser viado”, chegou a ouvir.

Os 4 jovens, que vieram para o Brasil há mais de 10 anos enfrentaram preconceito, dificuldades para se integrar e frequentar a escola, fazem parte de um dos maiores fluxos de entrada de imigrantes no país.

Mais de 70% dos 88.939 bolivianos vivem regularizados no Brasil estão em São Paulo: são quase 65 mil, segundo dados do Sistema Nacional de Cadastramento de Registro de Estrangeiros (SINCRE) da Polícia Federal,

Já para o Bolívia Cultural, veículo que produz notícias e levanta dados olhando por dentro a comunidade, há cerca de 450 mil bolivianos morando na cidade.

Na escola
A capital tinha 2.090 alunos de 55 nações diferentes, em 2009, e 70% eram bolivianos: 1.446, segundo a Secretaria Municipal de Educação.

Pela lei, todos têm acesso garantido à escola, independente de estarem em situação regular no país, de acordo com a Constituição Federal, a lei de diretrizes e bases (LDB), e o artigo 53 do Estatuto da Criança e do adolescente (ECA). Além disso, hoje, há outras resoluções do Conselho Estadual e Municipal de São Paulo que asseguram o direito do estrangeiro ao ensino público, sem restrições. Mas, nem sempre foi assim. Houve uma série de entraves legais.

Em janeiro de 1990, foi aprovada a Resolução nº 9 pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, que proibia estudantes sem documentação de frequentar a escola, só permitindo a matrícula de imigrantes “devidamente registrados” em qualquer ensino. A base para isso era o artigo 48 do Estatuto do Estrangeiro.

Hoje, os imigrantes devem ter acesso à educação independente do status no país – o que foi regulamentado pela Resolução nº 10, de 1995 – e as instituições de ensino devem dar apoio pedagógico ao estrangeiro, principalmente, no aprendizado da língua portuguesa.

Jovens bolivianos se mantêm integrados às tradições do país na feira da Kantura.

Integração frágil
Só que, ainda assim, na prática nem sempre ocorre esse suporte pedagógico como conta Eduardo Ulian, professor de sociologia da rede estadual e um dos autores do estudo “Minorias e identidades: Imigrantes Bolivianos em São Paulo”. Ele tem alunos bolivianos no ensino médio e diz já ter presenciado professores os desmerecendo, ainda que sejam exceções.

“Os entraves para as matrículas diminuíram muito nas últimas décadas e anos, o que ainda existem são casos isolados”, diz Giovanna Modé, que fez uma tese de mestrado sobre o tema “Imigrantes da Bolívia na escola em São Paulo: fronteiras do direito à educação”. Ela aponta que a garantia de matrícula e certificado de conclusão de curso independente da documentação, definida em 2004 pelo Conselho Municipal de Educação vem sendo cumprida.

Já no dia a dia da escola, a integração dos jovens bolivianos parece frágil. Segundo Giovanna, há relatos de discriminação e violência contra alunos bolivianos nas escolas, o que “é tão violador quanto o não acesso”.

Falta o olhar da escola para a imigração e a intolerância contra estrangeiros – e principalmente os latino americanos quando pensamos na realidade de São Paulo, dizem.

“Não estaria na hora de conhecermos mais sobre essas comunidades que vivem aqui? Certamente elas têm muito que dizer. Abrir espaço para essa troca é fundamental, e a escola pública é um lugar certo, de encontro”, diz Giovanna.

Pra rebater comentários preconceituosos na sala de aula, o professor Eduardo fala sobre cultura e a língua dos bolivianos. A comida é um dos elementos que liga os estudantes. Depois que descobrem a comida boliviana, os outros alunos pedem que eles tragam pratos típicos e isso ajuda na integração.

Caporal_foto_cassandraW1_-_CC-BYCultura de raiz
No dia a dia, apesar do tempo longe do país em que nasceram, os jovens bolivianos se mantêm ligados à cultura e toda semana se reúnem na feira da praça Kantuta, localizada na região central da cidade, no bairro da Armênia.

Ali, eles dançam a Caporal, que remete ao capataz dos escravos africanos levados à Bolívia pelos espanhois no período colonial. Os passos da dança relembram o feitor negro que reprimia os companheiros, fazendo valer as ordens do senhor.

As meninas usam saias rodadas curtas, chamadas de ‘pequena pollera’, e os meninos carregam um chicote pra demonstrar poder e domínio. Nas botas, eles levam guizos, pequenas rodas de metal, cujo barulho lembra as correntes atadas aos pés dos escravos.

Eles ensaiam o ano todo para a festa de 6 de agosto, quando é comemorada a independência da Bolívia e todos os grupos folclóricos se apresentam.

Pela dedicação, a Caporal ganha contornos de crença para os jovens. “Acreditamos que podemos fazer um pedido e, se dançarmos com fé por 3 anos, isso pode acontecer”, diz Julia, 20. “Mesmo depois que passam esses anos, é difícil de deixar a Caporal porque você pega amor”, emenda Jorge.

Julia nasceu na Argentina, mas diz que se preenche na cultura dos pais, bolivianos. O mesmo acontece com Leslye Darly, 15, Helen Samira e Anahí Mena, 14. Nascidas em São Paulo vivem rodeadas de brasileiros na escola e falam mais português do que espanhol no dia a dia, mas se sentem em casa na Kantuta.

Cristian, a namorada, Alan e Julia dançam a caporal toda semana.

Português
Falar a língua é fundamental para ser incluído como mostram as histórias dos jovens e também indica o artigo “Um estudo sobre a inclusão educacional de imigrantes bolivianos na rede pública de ensino na cidade de São Paulo”.

Mesmo Julia, que veio ao Brasil quando era bebê, teve dificuldades na escola por conta da língua.
“Eu tinha erros de grafia porque falava o espanhol em casa e o português na rua, aí para escrever mesclava os dois. Mas, no geral, me adaptei rapidamente.”

Depois dos 6 meses mudo na escola, Cristian aprendeu português e se adaptou. Agora, diz sentir-se deslocado quando visita os parentes na Bolívia.

“No meu país me olham diferente”.

Ele gosta de ir visitar os familiares, mas não pensa em voltar a viver por lá. Tanto é que está estudando contabilidade por aqui. Pra se integrar, ele vê que a língua é essencial. Hoje fala português até em casa, com os pais e a namorada, que tem descendência boliviana.

Jose Luis Taborga, 19, veio para o Brasil de Santa Cruz de la Sierra há 2 anos, mas não fala português.

Com planos de voltar à Bolívia em 1 ano para estudar medicina, ele está à margem da integração.
Sai para ouvir musica latina como a bachata, com amigos bolivianos, e trabalha para conterrâneos vendendo artigos típicos. No tempo em que está no país, raramente arriscou sequer um portunhol e nunca foi ao médico.

“Entender e falar o português possibilita uma série de benefícios, como a prevenção e tratamento de doenças. Essa falta de conhecimento torna os imigrantes mais vulneráveis”, diz Antônio Andrade, diretor do Bolívia Cultural.

Violência
A violência é um dos fatores que mais preocupa a comunidade boliviana – e vai além da escola: 60 bolivianos foram assassinados no país em 2014, segundo dados divulgados em uma audiência pública do Ministério Público Federal.

Depois de ser assaltado e reagir, Cristian entende que os bolivianos “precisam de proteção, pois nos julgam alvos fáceis de roubar.”

O Violência Não tenta fazer isso. Por meio de cartilhas e eventos, o programa orienta os imigrantes sobre como agir e se prevenir de investidas. Uma das ações é a quebra do silêncio, mostrando a importância de os bolivianos comunicarem imediatamente furto e agressões à delegacia de polícia mais próxima.

Antônio, criador da campanha, diz que a chave está na aproximação e no respeito. “Está na hora de perceber que o problema do outro é o mesmo que o seu. Não somos diferentes, quando se rotula se corrompe.”

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