Mais de 50% das pessoas ao redor do mundo hoje usam a internet, mas na maior cidade do Brasil, o ter ou não ter digital às vezes é uma questão de metros de distância

Giacomo Vicenzo da Énois Agência de Jornalismo para The Guardian
Publicado originalmente em inglês | Tradução: Laura Viana

Para algumas pessoas, entrar na universidade é uma questão de notas escolares. Para Luana Nunes, foi sobre encontrar uma conexão confiável de internet. Nunes quase perdeu as inscrições para o exame final do ensino médio por não ter acesso à internet em casa, e teve que ir à lan house mais próxima, a 40 minutos de distância. “Quando cheguei lá, percebi que tinha deixado um documento em casa”, ela conta.

Nunes vive em Barragem, no extremo sul de São Paulo, onde áreas vastas são desertos de internet. Foi só em 2018 que ela finalmente conseguiu a opção de ter internet em casa.

Agora com 23 anos e estudando jornalismo, Nunes tem conexão em casa graças a uma empresa local que fornece acesso à internet por rádio. Ela tem um modem que consegue captar o sinal de 3G dos arredores, ainda que seja bastante fraco.

“É bem instável quando chove”, ela diz. “Quando é algo urgente, eu fico andando pela vizinha, tentando conseguir sinal em lugares mais altos. Eu me sinto desconectada do mundo, literalmente. É um jogo de paciência e persistência”.

Residentes de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, procuram sinal de wifi gratuito. Foto: Flavio Forner para The Guardian

O acesso doméstico à internet tem crescido estavelmente no Brasil. De acordo com o levantamento domiciliar do ICT, 61% das casas estavam conectadas em 2017, em comparação aos 54% do ano anterior. Mas a desigualdade bruta existe também no Brasil virtual, e São Paulo, uma das maiores e mais desenvolvidas cidades do país, é também uma das menos conectadas, figurando na posição 99 numa lista de conectividade com 100 cidades brasileiras.

“Existe um mito de que pessoas sem acesso vivem no nordeste brasileiro, mas o maior número de famílias sem conexão fixa está em São Paulo,” diz Rafael Zanatta, líder do programa de direitos digitais do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC).

O principal motivo é o preço. A conexão banda larga com 10 Mbps ainda custa cerca de 100 reais por mês, mais de 10% do salário mínimo no Brasil.

Em São Paulo, a distribuição de internet espelha a desigualdade da cidade. Em Paraisópolis, uma das maiores favelas da cidade, localizada ao lado do bairro de alto-padrão do Morumbi, não há serviços de internet fixa de alta qualidade. “Mas basta atravessar a rua para encontrar várias opções,” diz Zanatta.

Lourenço Coelho, presidente da Abrintel, grupo de infraestrutura de telecomunicações, que é encarregada da instalação de antenas de internet móvel, diz que leva dois anos para construir e instalar uma antena, e pelo menos cinco para instalar uma no topo de uma torre para oferecer conexões mais rápidas.

Coelho conta que a última antena foi instalada em São Paulo em 2016. Nesse ritmo, ele diz, a maior parte dos paulistanos vai ter problemas para continuar usando celulares daqui alguns anos – o que significa que a conectividade da cidade pode, na verdade, piorar.

E não são só estudantes que precisam fazer provas que enfrentam a marginalização. Uma série de serviços governamentais agora acontecem online, então conseguir RG, carteira de motorista ou registros para carros, ou até mesmo pagar pelas vagas de estacionamento da cidade, pode ser uma grande batalha para os desconectados.

A privação de direitos digitais contraria as próprias diretrizes do país, contidas no Marco Civil da Internet, de 2014, que afirma que o acesso a internet “é essencial para o exercício da cidadania” e que o governo deve “promover a inclusão digital”.

Vista aérea de Heliópolis. Foto: Flavio Forner/the Guardian

Mas a lei não tem sido aplicada de forma consistente. Além disso, provedores de internet móvel têm cada vez mais oferecido acesso grátis ao Whatsapp e ao Facebook, o que significa que a maior parte dos usuários acaba preso às redes sociais. O Whatsapp é utilizado por 81% da população; uma pesquisa de 2015 realizada pelo provedor Jana descobriu que 55% dos brasileiros concordam com a afirmação de que “o Facebook é a internet”.

Quem não tem conexão doméstica ou móvel é deixado à mercê da escassa infraestrutura pública para conseguir acessar a internet. Em São Paulo, que tem uma população de 12,2 milhões de pessoas, isso inclui 120 praças com conexão de wifi gratuita e 132 telecentros – serviços públicos que oferecem acesso grátis à internet.

Depois de um processo de consulta pública, a cidade tem sido pressionada para dobrar o número de pontos de wifi gratuito, diz Daniel Annenberg, secretário municipal de Inovação e Tecnologia. Ele diz que a cidade está dentro do cronograma para alcançar a meta de 300 pontos de wifi gratuito até 2020.

Annerberg diz que a cidade pretende modernizar seus telecentros, muitos dos quais foram inaugurados em 2001, com a ideia de torná-los apropriados para espaços de co-working. “Especialmente nos extremos [da cidade],” ele diz, “estes telecentros são cruciais para quem não tem computador ou smartphone”.

Luana Nunes procura por sinal de internet gratuita em praça no centro de Parelheiros. Foto: Flavio Forner/the Guardian

 

Para Bruno Carvalho, 24, pintor de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, foi em um telecentro que aconteceu sua primeira experiência com a internet, em 2007. “Antes daquilo eu não sabia bem o que era. Naquela época eu costumava ir a lan houses e telecentros do bairro para acessar o Orkut, baixar música e pesquisar no Google. Eu não sabia bem que podia usar para outras coisas.”

Um pouco depois, a mãe de Carvalho comprou um computador de seu chefe. “Nós usávamos conexão discada – era tão lenta e difícil de usar,” ele lembra.

Foi só em 2012 que ele contratou uma empresa pequena e local chamada Godnet, o primeiro provedor a oferecer conexão banda larga na favela. Companhias pequenas desse tipo são os provedores que têm crescido mais rápido e oferecido os melhores serviços, afirma Zanatta.

Mas em grandes metrópoles como São Paulo, competir com grandes operadoras é difícil. “Nós defendemos que pequenos provedores devem ser apoiados por financiamentos de bancos públicos” diz Zanatta. “Com juros mais baixos, eles podem oferecer também preços mais baixos.”

Mesmo quando grandes empresas de internet chegaram à favela, Carvalho continuou com a Godnet, que agora fornece conexão por fibra óptica -– o tipo mais rápido de conexão disponível no Brasil. Graças à atualização, ele começou a fazer um curso online: “Eu comecei a estudar na Univesp, que é uma universidade pública de ensino à distância. Se eu ainda tivesse a conexão lenta, não teria como ver os vídeos.”

Reportagem publicada originalmente em inglês no The Guardian. 

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