A meta de audiência é causar
Por: Simone Cunha

Distribuir para impactar: é praí que ajustamos o foco e pensamos nas aulas e no desenvolvimento dos projetos. Entregar o que fazemos ao maior número e mais diverso perfil de pessoas, sim, mas com o objetivo de que a informação que produzimos influencie a sociedade.

A Énois não tem um canal de distribuição das reportagens, em vez disso, queremos construir parcerias de distribuição e impacto. Discutimos bastante internamente – e sempre podemos mudar de ideia -, mas hoje entendemos a necessidade de experimentar e, mais do que isso, usar canais e pensar em maneiras de distribuir o jornalismo que fazemos. E fazer acontecer com ele. Isso porque temos uma equipe pequena, nossa produção é pontual, demorada e reflexiva, acontece num processo de formação.

Números mostram que nosso foco não são os números
Numa conta rápida e quase de padaria, vimos que as reportagens feitas pela Énois chegaram a pouco mais de 600 mil pessoas em 2016, que ficaram perto de 5 minutos lendo nossas produções. Com base nos números, somos dependentes do UOL Tab, nosso maior parceiro de distribuição e que também teve um belo retorno com a gente. A reportagem que fizemos juntos – equipe de lá e daqui apurando e editando – sobre baladas de adolescentes, teve a segunda maior audiência do projeto no ano passado: perto de 235 mil. Juntando as outras três – sobre a formação dos PMs, a bancada jovem na câmara dos deputados e o empreendedorismo social – chegamos perto de 600 mil pessoas.

Só que alcance e impacto vão além dos números. Junto com o UOL levamos repórteres, fontes e abordagens diferentes das usadas por eles. Colocamos como jovens das periferias e a realidade vivida nas quebradas no jornalismo do centro e, segundo os comentários, nossas matérias são percebidas como de esquerda. A partir dessa experiência, estamos formando parcerias com outros veículos que buscam alcançar um mundo mais diverso por meio da juventude das periferias de São Paulo.

Publicamos nas redes sociais e canais da Énois reportagens como as #nanobolsas, em que bancamos microreportagens temáticas da nossa rede, testando para ver onde chegaríamos. Numericamente, ficamos perto, mas mesmo assim vimos que é possível, a partir da ativação de outras redes, ampliar e qualificar o alcance.

Na primeira #nanobolsa que fizemos, com uma equipe de jovens – e ativistas – de Belém do Pará, alcançamos por volta de 300 pessoas, mas vimos o potencial de ativar redes específicas, como nesse caso a de jovens secundaristas da região norte do país, já que os produtores fizeram também a distribuição por meio das redes sociais. A série de nanbolsas sobre jovens políticos chegou a quase 800 pessoas, puxando um debate qualificado e profundo na esteira das matérias. São duas estratégias que queremos trabalhar de forma pensada e alargada daqui pra frente.

Jornalismo ao vivo, para o público e com o público
Pra além do mundo online e da distribuição tradicional via mídia, buscamos chegar nas pessoas de forma mais profunda. Fizemos seis eventos em diversas regiões da cidade, com públicos e formatos diferentes. Tivemos lançamento tradicional de livro – o Prato Firmeza – na Livraria Martins Fontes da avenida Paulista. Um sarau sobre consumo em plena RedBull Station, no centro da cidade, no lançamento da reportagem Identidade Parcelada. Invadimos espaços culturais do centro e das periferias, como os bares Mandíbula e Tapera Taperá, Centro Cultural Butantã, Centro de Arte e Promoção Social (CAPS), Casa da Árvore, Jovens Sem Fronteiras, Aponte e Matilha Cultural.

Discussões na vida real e cultural da cidade são um formato de distribuição que é produto da rede da Énois, nosso maior ativo e por onde tudo o que sempre fizemos acontece. O saber com quem – pessoas, lugares, hubs – se juntar e como – de forma a levar reflexão e nela repensar o que apuramos – faz parte do laboratório que somos.

Discussão e venda do Prato Firmeza no Garotas no Poder, do Mandíbula.

Um resultado super concreto de tudo isso junto foi o Prato Firmeza, nosso guia de gastronomia das periferias de São Paulo. O site alcançou pouco mais de 5 mil pessoas, o guia físico outra quantidade próxima dessa. Mas e a discussão que fizemos nos eventos e via imprensa sobre a falta de diversidade na mídia, que engessa o olhar sobre tudo não só sobre comida? Foram mais de 20 matérias sobre o guia, dezenas de debates que continuam acontecendo em 2017 e o posicionamento estratégico da Énois como articuladora da diversidade nas redações.

Pra esse ano, queremos medir não só o número de pessoas que vão aos nossos eventos, mas também o que aprenderam, se sentiram refletidas e vão fazer com o que foi dito ali. Estamos buscando financiamento pra calcular impacto.

E pra mergulhar mais fundo na reflexão sobre distribuição, formamos parceria com a Taturana, uma plataforma de distribuição audiovisual, e o Instituto Alana, uma ONG voltada à infância. A Taturana vai guiar a turma da EJ no desenho da distribuição de uma reportagem que iremos fazer sobre a relação do jovem com o dinheiro, analisando o público que pode impactar e em como chegar nele chamando-o pra ser porta voz da produção. Com o Alana, estamos experimentando a plataforma de filmes transformadores Videocamp, que disponibiliza conteúdo audiovisual para que qualquer pessoa organize uma sessão pública gratuita – com direito a debate no final, se quiser. 

Pensar em como alcançar, não só a partir dos números, mas mensurar o impacto na sociedade, é parte central da formação de Escola de Jornalismo 2017. E iremos distribuir via blog esses experimentos e reflexões sobre como fazer o jornalismo ir longe e causar.