Diante da pandemia de coronavírus, jornalistas usam ferramentas alternativas para fazer apuração, elaborar diagnósticos e produzir pautas para informar neste cenário de crise


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No último mês aqui na Énois imergimos em um processo de checagem dos 113 restaurantes já mapeados pelo Prato Firmeza, nosso famoso guia gastronômico das quebradas. Nós queríamos atualizar as histórias dos restaurantes, dos pratos, de suas cozinheiras, empresárias e administradoras nas quebradas e favelas da cidade. E saber como estão se virando em tempos de pandemia. Então eu, Gabriella Mesquita, residente do eixo de Produção e Distribuição da Énois, e a jornalista Camila da Silva, também formada na Énois, contatamos todos os restaurantes das três edições do guia. 

Descobrimos, por exemplo, que 21 deles suspenderam as atividades por causa da pandemia do coronavírus e mais de 50 estão funcionando com entregas (estamos divulgando os restaurantes no nosso Instagram, segue lá!). Em breve, você poderá conferir as atualizações no site do Prato Firmeza. E também receber em casa sua edição do guia gastronômico das quebradas de São Paulo. 


PONTAPÉ DA APURAÇÃO

Começamos buscando os endereços no Google Maps, já que os telefones que tínhamos estavam desatualizados ou não existiam mais. No início da apuração, tivemos muita dificuldade de encontrar alguns restaurantes da primeira edição do Prato Firmeza, de 2016. Eles literalmente sumiram do mapa. Rodamos as ruas pelo Maps para tentar encontrar algum rastro do Street Burguer, da primeira edição do PF, por exemplo. A hamburgueria ficava no Jardim Vergueiro, extremo sul da cidade.

Deixei o Sherlock Holmes e todos conhecimentos de stalker que existem em mim aflorarem. E, claro, fiz as pazes com as ferramentas virtuais que ajudam a localizar endereços e, mais especificamente, pessoas. Minha favorita é o Tweetdeck, um recurso do próprio Twitter que ajuda muito a encontrar pautas legais, notas oficiais, e especialmente fontes primárias. 

Por lá, consegui encontrar um tweet antigo de uma cliente do Street Burguer, que fez um comentário sobre o restaurante em 2016. Entrei em contato pelo Instagram (o link estava na bio do Twitter dela) e ela se tornou minha fonte: disse que o restaurante fechou. 

A Camila encontrou uma galeria quando foi buscar o endereço de um restaurante, mas não tínhamos o número da sala onde ele ficava. “Sem poder ir lá, eu entrei no site da galeria e cliquei na página de cada sala. Descobri que todas estavam sendo alugadas, logo nenhum estabelecimento estava funcionando.” 

Em alguns casos, tivemos que partir para o rastreamento físico, mesmo sem sair do isolamento. Sem o número de telefone, descobri pelo Maps que ao lado de um dos restaurantes tinha uma farmácia. Liguei lá e falei com a Carol, a funcionária atenciosa que atendeu.

Expliquei que eu era jornalista e que moro em Itaquera, no extremo leste da cidade e precisava falar com alguém do restaurante, que era no extremo sul. Pedi com muito jeitinho pra ela bater na porta da vizinha e pegar o telefone dela para mim. Deu certo. O estabelecimento não existia mais naquele local, mas consegui o telefone da atual proprietária, que me passou o contato da dona anterior. 

Esse tipo de mapeamento, online e apenas de casa, pode ser feito pra encontrar assuntos para inúmeras editorias. Por isso, resolvemos bater um papo com o Guilherme Henrique, que é repórter de política no Nexo e que apura informações de Brasília, muitas vezes, da sua casa em São Paulo. O relato foi editado pra ficar mais curto e objetivo.

Esse tipo de mapeamento, online e apenas de casa, pode ser feito pra encontrar assuntos para inúmeras editorias. Por isso, resolvemos bater um papo com o Guilherme Henrique, que é repórter de política no Nexo e que apura informações de Brasília, muitas vezes, da sua casa em São Paulo. O relato foi editado pra ficar mais curto e objetivo.


FISCALIZANDO A POLÍTICA INSTITUCIONALPELO INSTAGRAM

Diversa – Em tempos de pandemia, como fazer apuração à distância na política?
Guilherme Henrique – 
O primeiro passo que eu dou, se preciso de uma resposta do governo sobre um assunto, é ir atrás de todas as notas e comunicados oficiais na internet. Mas além disso, também existe o recolhimento de informação de bastidor, em que perguntamos para alguém do governo se ela ou ele pode dar um panorama de uma situação – e não necessariamente você coloca o nome na reportagem. Isso por e-mail, Whatsapp, telefone ou pelas redes sociais mesmo. A maioria dos grandes furos aparecem nesse momento em que alguém do governo vaza alguma informação, como a da queda do ex-juiz Sérgio Moro.

D – Quais ferramentas virtuais você utiliza para realizar suas apurações de casa?
GH
 –
Portal da Transparência e a Lei de Acesso à Informação, que dão acesso oficial a informações do governo. Além disso, utilizo também o Tweetdeck e o Twitter. O Instagram da pessoa às vezes deixa uma coisa ou outra escapar. Por exemplo: na nomeação do Alexandre Ramagem, que o Bolsonaro queria fazer pra direção geral da Polícia Federal, foram buscar uma foto no perfil do Instagram do Carlos Bolsonaro, que é filho do presidente. Encontraram uma foto em que o Alexandre está abraçado com ele. Isso viralizou e acabou sendo um dos apontamentos do Alexandre de Moraes, do STF, pra barrar a nomeação. As redes sociais têm um papel bem importante nesse processo.

D – Depois da pandemia, mudou alguma coisa no seu processo de apuração?
GH – 
A pandemia só reforçou os cuidados com a checagem. Você tem que ter muito mais atenção com dados, fontes, saber se aquele documento é válido ou não, saber se determinada pessoa tem referência pra falar dos assuntos. Por se tratar de saúde, só aflorou uma coisa que já era necessária: ter atenção total.

D – Se você pudesse dar uma dica para outros jornalistas que apuram em contexto de pandemia, o que você sugeriria?
GH – 
Muita atenção aos dados. O contexto de pandemia, seja o recorte de pauta que for, faz com que as notícias precisem ser veiculadas com uma rapidez ainda maior. Você precisa dar conta de muitas informações ao mesmo tempo, muitas redes sociais, e ter agilidade pra conciliar as informações de todas essas redes e plataformas. Pode haver uma quantidade de informação imensa, aí saber como escrever rápido e corretamente acabou se tornando uma demanda maior no meu caso. É preciso ter muita atenção com o que se escreve e com a informação que você está passando porque as pessoas estão dependendo dessa informação. O jornalista não tem que saber de tudo. Ele precisa ser o caminho fluído para que a pessoa que leia saiba o que ela vai encontrar, para que ela se sinta respondida.


NO RADAR

Registro histórico da pandemia

► Os museus (pelo menos nos EUA) já começam a decidir como relembraremos a pandemia. E no jornalismo, que história do cotidiano vamos contar? O que será repensado?

► O que uma parcela da sociedade elaborou sobre a pandemia é apontado pelo Ecoa, do UOL, numa matéria que agrega livros e textos sobre o impacto da pandemia em nós, na vida, na humanidade: Angela Davis aponta fortalecimento do coletivo; Luiz Antonio Simas e Luiz Ruffato falam em vivacidade contra mortandade.

► Precisamos elaborar a desumanização de alguns. Entre muitos estãos os operadores de telemarketing, invisíveis precarizados considerados essenciais e trabalhando em salas cheias e sem janelas durante a pandemia, como mostra a Agência Pública.

Ódio

► Coronavírus vira estigma para chineses, que são atacados nos EUA, mostra reportagem da ABC News.

► No Brasil, ódio se vira para a imprensa e Folha e Globo deixam de cobrir Alvorada por falta de segurança. E no Reino Unido, o Reuters Institute encontrou aumento de aversão a notícias, depois de um aumento na busca delas no início da pandemia.

Jornalismo

► Mulheres são as zeladoras da equidade também na Agência Mural, diz a editora Cinthia Gomes. E o Em Quarentena, podcast diário do canal, chega à edição 40 contando os bastidores e como foi parar em rádio europeia.

► Radar é um projeto que junta apuração de respostas e soluções para a pandemia pelo mundo para ajudar pessoas a aprenderem coletivamente com o que funciona, indicado pela Priscila Pacheco no Hostwriter.

► O relatório de diversidade do New York Times de 2019 mostra que houve avanço na representatividade de mulheres e não-brancos na redação, mas ainda há buracos principalmente de negros em cargos de liderança.


Acompanhe as últimas reportagens publicadas pela parceria da Énois com Gênero e Número, AzMina e data_labe:

► Uma residência com banda larga fixa demora, em média, 2min51seg pra baixar um arquivo de 1GB, enquanto uma pessoa com internet móvel, realidade da maioria das favelas, demora, pelo menos, 10min13seg. Como defender Ensino à Distância? Gráficos do data_labe.

► Referência na luta por direitos de pessoas transgêneras, Neon Cunha articula ações de combate ao coronavírus voltadas à população LGBTQI+ no ABC Paulista. Da Énois para revista AzMina.  

► A pandemia do novo coronavírus escancarou as desigualdades sociais do Brasil no campo da educação. Mas a desvalorização dos profissionais, a falta de acesso às ferramentas e o interesse de empresas em vender “soluções inovadoras” ao governo não são novidade. Confira nessa linha do tempo como propostas e decisões políticas da nossa história recente indicam como chegamos até aqui e para onde podemos ir no pós-Covid. data_labe.

► Falta de endereço fixo impede mulheres migrantes de saírem de presídios de SP durante a pandemia. Existem atualmente 115 mulheres migrantes cumprindo pena em regime fechado nas penitenciárias de SP. Mesmo as que estão no grupo de risco para a COVID-19 seguem presas, apesar de recomendação do CNJ relacionada à pandemia; Judiciário opta pela prisão ao invés da proteção dessas mulheres. Na Gênero e Número.

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