Frente ao avanço do coronavírus, grupo de moradores criam iniciativa para mapear as necessidades dos bairros ligadas ao coronavírus e mobilizar as lideranças comunitárias para reivindicar serviços essenciais para a população


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Salvador, na Bahia, é a sétima cidade do país com mais casos de coronavírus e a prefeitura vem fazendo o fechamento de regiões específicas conforme os casos aumentam, segundo os dados da secretaria de saúde municipal. 

Para pressionar por ações mais próximas e específicas para os bairros populares da capital baiana, um grupo de mais de 30 entidades sociais e trabalhadores da saúde locais criaram o Comitê Comunitário Virtual, onde trabalham juntos coletando e analisando dados sobre a Covid-19. Produzir dados foi o caminho que encontraram para que a prevenção, diagnóstico e tratamento sejam mais efetivos nessas regiões.

Por meio de um questionário, levantaram informações em 43 bairros populares de Salvador e traçaram um panorama das comunidades sobre a contaminação, o dia a dia da prevenção e o acesso à informação sobre a doença.

E apuraram que não há informação clara e de um jeito que as pessoas dali consigam entender e se conectar. “É necessário que os materiais de educação e saúde sejam condizentes com a realidade social, cultural e a linguagem das comunidades da periferia. Os materiais de informação da doença que existem não comunicam”, diz Fabiana Palma, que é doutoranda em Saúde Coletiva em Epidemiologia, faz parte da Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina e do Comitê Comunitário.

O comitê também produz relatórios semanais sobre a contaminação nos bairros populares. Os documentos serviram de base para um pedido de explicações da defensoria pública ao governo da Bahia sobre quais medidas de prevenção estão sendo feitas nestes bairros

Leia abaixo a entrevista da Fabiana Palma, editada para ficar mais curta e objetiva. 


COLETA CIDADÃ DE DADOS

Diversa – O que é o Complexo Nordeste de Amaralina?
Fabiana Palma –
 
É uma das localidades mais antigas de Salvador, o bairro é formado pelo Nordeste antigo, Santa Cruz, Vale das Pedrinhas e Chapada do Rio Vermelho: o Complexo do Nordeste de Amaralina. Fica perto da orla, entre bairros considerados “nobres” e de classe média como Pituba, Brotas e Amaralina. A população, de cerca de 90 mil pessoas, é predominantemente negra, com escolaridade média abaixo do ensino fundamental. Muito são desempregados ou têm ocupações de pouca qualificação e baixa remuneração como pedreiros, serventes, diaristas, empregadas domésticas nos bairros de classe média do entorno. A cultura africana é rica. Berço da capoeira Angola de Mestre Bimba, do Samba-chula de Mestre Pedro, do Mestre Guigui do Ilê Aiyê, Tote Gira, que é autor da música “O Canto dessa Cidade Sou Eu”.

A Santa Cruz está na lista dos dez bairros da cidade de Salvador com mais alto potencial de disseminação da Covid-19, segundo estudo da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E no Complexo todo tem dois postos de saúde e uma policlínica que funcionam em condições precárias, sucateadas, com falta de médicos, enfermeiras e outros profissionais de saúde.

D – Qual tem sido o trabalho de vocês durante a crise do coronavírus?
FP –
 
Assim como é observado para outras doenças, a população mais vulnerável possui poucas alternativas frente ao avanço do coronavírus. Por isso, um grupo de moradores e moradoras do Complexo Nordeste Amaralina tomou a iniciativa de criar o Comitê Comunitário de Monitoramento Virtual da Covid-19 nos bairros populares de Salvador e um sistema de notificação, que pode ajudar o serviço de saúde na localização de casos suspeitos e contatos assintomáticos, quebrando a assim a cadeia de transmissão da doença.

Os principais objetivos do Comitê Comunitário são mapear as necessidades dos bairros ligadas ao coronavírus e mobilizar as lideranças comunitárias dentro e fora do bairro para reivindicar serviços essenciais para a população, como carro de som sobre a prevenção da doença, distribuição de água sanitária e sabão, quarentena, renda mínima e cesta básica. E garantir que essas populações tenham acesso a testagem rápida e a internação com isolamento. Temos cerca de 37 bairros da cidade fazendo parte do grupo.

D – Como fazem o mapeamento das necessidades no território?
FP –
 
Através da divulgação de um questionário online, em que buscamos realizar identificar a situação dos bairros de Salvador sobre a prevenção, com perguntas sobre distanciamento social e serviços essenciais nas comunidades como água e postos de saúde; e conhecimento dos e das moradoras sobre a Covid-19.

D – Que tipo de necessidades de informação as pessoas têm aí?
FP –
 
Estamos identificando que é necessário que os materiais de educação e saúde sejam condizentes com a realidade social, cultural e a linguagem das comunidades da periferia. Os materiais de informação da doença que existem não comunicam e não são acessíveis por uma série de questões, uma delas é o sucateamento da educação.

D – Vocês estão fazendo levantamento de casos suspeitos de coronavírus. Como funciona o levantamento e que impacto e importância tem?
FP –
 
Criamos um questionário on-line para mapear entidades comunitárias em que o respondente informa se conhece algum caso suspeito ou confirmado do novo coronavírus. A ideia é usar o levantamento para cobrar das autoridades governamentais respostas para o enfrentamento da doença nos bairros populares de Salvador. Queremos informar aos órgãos de saúde locais sobre a nossa situação, o que precisamos para o enfrentamento dos problemas e cuidado dos residentes dos bairros. Com essas informações, construímos uma carta de reivindicação das demandas dos bairros para o governo do estado da Bahia e à Secretaria Municipal de Saúde de Salvador, mas até o momento não tivemos resposta. E também temos uma proposta de brigadas de apoio a idosos, pessoas com deficiência e com comorbidades em risco de serem afetadas pela Covid-19. Precisamos de financiamento e apoio para implementá-la. 


NO RADAR

► Na página do Globo e home do G1 nada se dizia das manifestações contra o racismo e o genocídio negro na manhã de segunda e, no twitter, Cecília Oliveira compila casos de racismo dos jornalistas na cobertura dos protestos nos EUA e no Brasil.Os museus (pelo menos nos EUA) já começam a decidir como relembraremos a pandemia. E no jornalismo, que história do cotidiano vamos contar? O que será repensado?

► Grafites retratam a epidemia ao redor no mundo, no NYT.

► Whatsapp, Facebook e Instagram conectam indígenas e ribeirinhos às notícias da pandemia de Covid-19 que se espalha pelo país, mostra o Instituto Socio Ambiental. Mas também tem rádio e telefone sendo utilizados para transmitir informações locais sobre a pandemia em regiões como a Terra do Meio, Território Indígena do Xingu e territórios Kayapó.

► A rotina de um terreiro candomblecista de São Paulo durante a pandemia, na CNN. “Os problemas que as pessoas estão enfrentando hoje com a Covid-19, de ver seu ritual sendo impedido, é uma coisa que a gente sempre enfrentou por conta da intolerância”, diz pai Rodnei de Oxóssi.

► Notion de tendências de jornalismo.

► Lista no Twitter de jornalistas negras e negros.


Acompanhe as últimas reportagens publicadas pela parceria da Énois com Gênero e Número, AzMina e data_labe:

Quem cuida dos filhos das enfermeiras durante a pandemia? Crianças filhas de profissionais da saúde são mais intensamente atingidas pela pandemia, com mães afastadas e ameaça constante da infecção. Énois para Revista AzMina.

► Fundadora do coletivo Pretas Ruas, Pamella Lessa intensificou o trabalho de auxílio a moradores de rua e mulheres em situação de vulnerabilidade econômica. Na Gênero e Número.  

Ministério de Damares gasta apenas 2 mil reais com mais vulneráveis na pandemia. Ministra não apresentou planejamento de gastos e execução orçamentária é nula, até agora. Dos R$ 45 milhões disponibilizados para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos em ações que beneficiem mulheres, população de rua e povos tradicionais durante a covid-19, aproximadamente dois salários mínimos foram gastos. Da Gênero e Número.

“A ausência do Estado tem acelerado muito mais a mortalidade nos territórios indígenas”. Celia Xakriabá, professora, ativista e uma das organizadoras da Marcha das Mulheres Indígenas, destaca as ameaças que a comunidade tem sofrido durante a pandemia de coronavírus e alerta para o perigo de equiparar a atuação de missões religiosas a de profissionais de saúde nestes locais. Para Gênero e Número.

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