O ano começa com a posse de um governo que restringe a imprensa e as organizações da sociedade civil e classifica jornalismo desfavorável como fake news a ponto de retweetar uma imagem como essa abaixo.

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É a continuidade de 2018, o ano da polarização ou da morte do consenso. E em que o Brasil viu redações se unirem escolhendo a checagem contra a desinformação.

Comprova juntou 24 redações, a Agência Pública criou uma rede local de checagem, a Globo se integrou internamente, as agências Lupa e Aos Fatos centraram fogo nas eleições. O ChecaZap, da Énois, se infiltrou em grupos de WhatsApp para checar as mensagens de grupos ligadas à eleição.

Num balanço rápido, o esforço de todas as iniciativas acima rendeu por volta de 1.000 checagens durante todo o processo eleitoral, parecendo inglório diante da avalanche de mensagens nos grupos partidários de WhatsApp e da aparente crença inabalável nas informações recebidas.

Só nos 347 grupos monitorados pelo projeto Eleições Sem Fake, da UFMG, foram postadas mais de 800 mil mensagens no período. O ChecaZap coletou 600 mil mensagens em 370 deles. As correntes de conspiração e desinformação atravessaram as eleições e, pior, continuaram a ser acreditas e replicadas mesmo após corrigidas.

Uma mudança estrutural depende da integração da imprensa, das empresas que são parte do problema – leia-se Facebook e Whatsapp –, dos legisladores e executores de políticas – que vão elaborar e fiscalizar os crimes online. Mas o buraco está mais embaixo.

Passa por falar de como se constrói informação, interpretação de texto, discurso de venda, jornalismo e seu papel social, e também segurança na internet. Passa pela sala de aula. É por meio de iniciativas de educação para a informação que se consegue orientar no descontrole informativo, distinguindo entre o que é informação com lastro e o que é teoria conspiratória ou opinião – como falamos ao Ijnet.

NAS ESCOLAS

O Brasil tem 22 iniciativas de ensino de educação midiática em sala de aula, de acordo com um levantamento do Instituto Palavra Aberta – educação digital, desinformação, produção de jornalismo e outras ações formativas mais pontuais nem foram contabilizadas. A Énois está estimulando o fortalecimento e a estruturação delas por meio da formação para o jornalismo em sala de aula, que no ano passado alcançou 150 professores do país.

São iniciativas independentes, que ensinam a buscar informação, a verificar se uma fonte é confiável, a interpretar texto e imagens para entender qual o objetivo da mensagem, a desenvolver senso crítico e capacidade de se orientar num ambiente informativo hard core. Uns se chamam de jornal laboratório, outros educação midiática, alfabetização, letramento midiático.

Pra fortalecer o que fazemos e fazer junto, a Énois foi aos EUA – à convite do governo americano – conhecer projetos bem estruturados. A Associação Nacional de Educação Midiática começou a ser formada nos anos 90 por lá. Tem jornal científico estudando o impacto do ensino e desde o início integra acadêmicos da área de educação, jornalistas, professores e médicos. Sim, médicos.

Nos EUA, a alfabetização midiática tem uma interface grande com a saúde, já que muito da desinformação tem tradicionalmente este foco. Aí fazem treinamento de novos pediatras para melhor capacitá-los a receber e dar informações ligadas aos laboratórios farmacêuticos. A ideia é que médicos e pacientes pouco críticos e questionadores dos medicamentos vão ser presa fácil para a propaganda. No mesmo sentido, tem vários projetos ligados ao ensino básico, com a conscientização sobre anúncios e marketing.

Embora quem toca iniciativas por lá aponte que a chave para ter apoio seja desligar a educação midiática da política, a eleição do presidente Trump e a campanha de desinformação produzida pelo governo dele motivaram professores a desenvolver projetos de conscientização. Foi ali que Kerri Mauer se juntou à Dorothy D’Ascanio, especialista de mídia da Albert Einstein High School, em Montgomery, para desenvolver um programa de um ano com o objetivo de dar competências e poder para os alunos se informarem. No curso, eles investigam, apuram e entendem as consequências de informações fabricadas próxima da realidade deles.

Saber que um homem entrou armado ameaçando funcionários e clientes de uma pizzaria que eles conheciam em Washington, cidade vizinha de Montgomery, foi um desses choques. A violência foi consequência do pizzagate, um boato de que o lugar seria fachada de uma rede de pedofilia ligada à Hillary e Bill Clinton, e foi espalhado por milhares de pessoas nas redes sociais durante as eleições.

Para seguir a toada, as informações trabalhadas e o vocabulário são sempre atualizados. Fake news, por exemplo, é um termo que já não faz parte da formação. A não ser para avisar que ele agora costuma ser usado por quem quer descredibilizar a imprensa por conta da publicação de alguma informação negativa a seu respeito. Vide o primeiro parágrafo dessa news.

Os alunos de Kerri, que indicam o Instagram como principal fonte de informação, nos disseram achar que a saída é educá-los ou cada um vai acreditar na informação e confirmar o que já acreditam.

Renne Hobbs, uma das fundadoras da associação norte-americana de educação midiática diz que a estratégia para estruturar a educação para a mídia passa por 6 pilares. Um dos mais importantes é o apoio da comunidade, que pode barrar o ensino sobre a mídia por medo ou fortalecer as iniciativas se entender que se trata de dar condições básicas para crianças e jovens estarem mais autônomos nas redes e na vida. Outro é a imprensa, que pode amplificar as ações e ser parceira no desenvolvimento dos projetos educativos.

Fundamental também é ter uma rede que promova encontros, debates, troca de conhecimento, financiamento e a estruturação de políticas. O grupo de dez brasileiros – jornalistas, ongueiros e professores de jornalismo – que voltaram da viagem de reconhecimento de educação midiática nos EUA estão rascunhando como a educação midiática pode se fortalecer.

NO RADAR

► As duas previsões para 2019 mais lidas entre as mais de 200 produzidas peloNiemanLab foram sobre racismo. Na primeira, It finally sinks in that some people aren´t white, Janée Desmond-Harris, editora de opinião do NYT, pergunta “quem significa nós para o jornalismo?”. Essa pergunta precisa ser respondida com precisão. Na segunda, Errin Haines Whack, jornalista especializada em raça e etnia da Associated Press coloca que a questão central é o não enfrentamento do racismo, o que faz com que as reportagens e o rascunho da história feito pelo jornalismo seja menos fiel. Nome do texto é uma cutucada: “Repita comigo: racismo“.

► O WordPress está lançando o Newspack um publicador voltado para iniciativas de jornalismo local e que promete ajudar na sustentabilidade. As adesões são grátis, mas depois o uso vai para entre US$ 1.000 e US$ 2.000, diz o NiemanLab.

► Facebook cria fundo de US$ 300 milhões para investir em imprensa local. Por ora, nos EUA e Inglaterra, via NiemanLab.

► No Congo, uma tentativa de lutar contra a desinformação sobre os supostos perigos do tratamento do Ebola une governo e outras entidades informando via WhatsApp, rádios locais e líderes comunitários e religiosos, diz texto do NiemanLab.

Esse conteúdo faz parte da Diversa, a newsletter da Énois que investiga e mapeia a diversidade no jornalismo do Brasil e do mundo. Inscreva-se para receber.