Falta diversidade no jornalismo brasileiro 

Por: Nina Weingrill

Em 2011 o Matheus estava angustiado. Queria ser chef de cozinha. Mas era como se quisesse ser astronauta, de tão distante que o sonho parecia ser para ele. Não tinha grana para bancar um curso, não conhecia nem pelo cheiro a “alta gastronomia” e só o transporte para levá-lo do Capão Redondo até o centro da cidade, onde estavam os “bons restaurantes”, já era um impeditivo.

Matheus era um dos alunos da nossa oficina de jornalismo. Então colocamos fogo na sua inquietação e propusemos que ele tentasse buscar, ali mesmo no bairro, um lugar com comida verdadeiramente boa e barata. Foi aí que ele conheceu, numa viela, o Ateliê Sustenta Capão, comandado por José Carlos, que havia aprendido tudo sobre pães em uma padaria artesanal onde trabalhou por três anos, em Pinheiros. Decidido a fincar pé no próprio bairro, pedira demissão e abrira, com o irmão Bruno, uma panificadora no quintal de casa.

Cinco anos depois, Matheus virou chef de cozinha, a oficina de jornalismo se transformou na Énois — Escola de Jornalismo e voltamos a encontrar José Carlos — agora um empreendedor local bem-sucedido — nas páginas do recém-lançado Prato Firmeza, um guia gastronômico criado para mapear bares, restaurantes, hamburguerias e carrinhos de comida nas periferias da cidade de São Paulo.

Depois de Matheus, outros pés foram trilhar o mesmo caminho. Jovens das periferias, correspondentes da Énois, mergulharam nos seus bairros para mapear mais de 80 locais e descobrir relíquias a menos de R$ 20 a refeição, como um restaurante tradicional japonês nos confins de Parelheiros, no extremo sul, uma fábrica que produz 15 mil salgadinhos por dia para alimentar bocas adolescentes e exigentes na zona leste e um espaço libertário que faz pizzadas veganas uma vez por mês em Santo André.

“Existe uma cidade toda a ser desvendada que a mídia simplesmente desconhece”

Para além da comida, esse guia significa a possibilidade de se contar outras versões de uma mesma história. Muitos dos bairros ali mapeados só aparecem nas manchetes de páginas policiais. Existe uma cidade toda a ser desvendada que a mídia simplesmente desconhece. E por quê? Porque ela vive numa bolha.

FOTO: Guilherme de Sousa / Énois

Nova Mandacaru: casa do norte na periferia da Zona Norte oferece um dos melhores e mais fartos baiões de dois de São Paulo

“Falta diversidade à cobertura jornalística. E falta, também, diversidade dentro das redações”

O jornalismo nasce do encontro com a realidade. E o que estamos fazendo há décadas é relatar apenas o ponto cego. Falta diversidade à cobertura jornalística. E falta, também, diversidade dentro das redações — alterar esse cenário é uma das razões da existência da Énois.

“Diversidade é crucial para a sobrevivência da mídia. Em 2050, mais de 50% dos americanos serão não brancos”, afirmou Paul Cheung, presidente da Associação de Jornalistas ásio-americanos, em entrevista para o jornal americano The Atlantic. Mais do que de publicidade ou de novos modelos de negócio, as publicações precisam de seus leitores para sobreviver. No Brasil, não brancos já são maioria. O que torna urgente a busca por representar esses interesses como forma de se manter vivo. “Toda hora somos bombardeados com a ideia de que o melhor é o de fora, que o importado é bom e que o que você tem por perto não vai te saciar. Paramos de valorizar o local porque ninguém fala sobre ele”, afirma Alexandre Ribeiro, um dos jovens que produziu o Guia Prato Firmeza em 2016.

FOTO: Alexandre Ribeiro / Énois

Mary Hamburgueria, de “noiz pra noiz”, os pobre ‘loko’, uma boa hamburgueria que você vai se sentir bem em Diadema

No mesmo período em que a produção de mídia passou por mudanças significativas, a demografia do jornalista brasileiro mudou quase nada. Numa pesquisa realizada em 2012 pela UFSC para entender o perfil do jornalista (Quem é o jornalista brasileiro), nove em cada dez eram diplomados em Jornalismo, em sua maioria por instituições de ensino privadas. Na mesma pesquisa, o percentual de negros entre os jornalistas era inferior à metade da presença de pretos e pardos no Brasil (72% dos jornalistas eram brancos, enquanto que 52% da população brasileira se declara negra segundo o IBGE). Mulheres em cargos de chefia é outra questão: as mais jovens ganhavam menos que os homens. Mulheres eram maioria em todas as faixas até 5 salários mínimos e minoria em todas as faixas superiores a 5 salários mínimos.

Para alterar a cena da produção jornalística, há que se rever o processo de seleção. Lembro dos meus primeiros: cursei uma faculdade de jornalismo conceituada e, em qualquer entrevista de estágio, minha concorrência eram apenas — e apenas — os meus colegas de classe. Seu poder econômico já os levava para a semifinal das disputadas vagas de emprego. E não era só isso: quem topava praticamente pagar para trabalhar? O processo seletivo hoje é prejudicialmente seletivo. A revisão do processo, acolhendo perfis e formações diferentes, impacta no resultado final do jornalismo.

Outro ponto crucial é diversificar a chefia. Em muitas empresas, existe um perfil esperado para quem ocupa o cargo. Isso prejudica a retenção de pessoas que hoje são minorias nesses espaços. “Ter uma chefe negra como eu fez com que eu me sentisse mais segura para me afirmar esteticamente, deixar meu cabelo crescer. Eu tinha orgulho dela”, afirma a repórter Nayra Lays, 19 anos, também envolvida com a produção do Guia.

FOTO: Steph Minucci / Énois

Dr. Naturalle, na zona leste de São Paulo, é um dos primeiros restaurantes vegetarianos invadem a quebrada

No limite, estabelecer cotas pode ser uma saída. É polêmico, mas leis e alterações em políticas internas forçam e aceleram uma mudança cultural. Criar cotas para diversidade pode ser um caminho para transformá-la em algo natural. Os EUA vivem esse processo há mais tempo e, apesar de ainda sofrerem muito com a falta de diversidade, você não entra em espaços — de educação ou profissionais — que não sejam minimamente diversos.

Não podemos nos esquecer que a geração do Matheus, do Alexandre e da Nayra tem, graças à internet, a possibilidade de conhecer o outro lado da história, de furar as bolhas. Se a imprensa não se lembrar disso, poderá morrer por falta de uso.

FOTO: Guilherme de Sousa / Énois

reportagem publicada originalmente na revista TRIP