Necropolítica, a política da morte que o governo Bolsonaro adotou para conduzir o país


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Enquanto vemos e noticiamos a política de morte do governo Bolsonaro na pandemia, o tradicional genocídio vivido nas periferias continua – e se agrava.


NECROPOLÍTICA

Diversa: A política de descaso com a pandemia deste governo é uma continuidade muito extrema do genocídio da população negra e periférica que vocês ja cobrem. Você vê essa relação?
Maria Tereza Cruz: Sim, vejo essa relação muito clara. Nas favelas está acontecendo a política genocida de sempre. Os governadores Witzel e Doria surfaram na onda do inimigo a ser combatido, do Bolsonaro, e se elegeram. Hoje romperam. As medidas adequadas que estão tomando em relação à pandemia não faz com que eles tenham ficado razoáveis do dia para a noite. Não ficaram. São o mínimo e não apagam o histórico da política de segurança pública genocida que encampam. O papel do jornalismo é dar essa perspectiva, dimensionar a violência na pandemia. Não esquecendo que operações policiais continuam acontecendo como a desta terça, 19 de maio, com a morte do menino João Pedro, de 14 anos, dentro de casa. Essas abordagens violentas da polícia não vieram com a pandemia. E a imprensa não pode deixar isso ser ofuscado por conta da doença.

D: Está havendo aumento da violência policial?
MT: Isso está e, na minha leitura, pode ter duas razões: as pessoas estão tão preocupadas (e aqui coloco a imprensa) com o coronavírus, que deixam um pouco de lado a violência policial. E o coronavírus não impede nem diminuiu as ações em territórios vulneráveis. É um efeito que eu chamo do “deixa disso”. As ações, ao que tudo indicam, corretas do governador Doria em SP não invalidam a política genocida na segurança pública. Pelo contrário. Eles não mudaram. Continuam defendendo o que sempre defenderam: inimigo a ser combatido, caveirões aéreos, homenagem a policiais que matam e lugar de bandido é no cemitério (citando ações/declarações dos dois aqui). 

D: Já há dados que mostram essa realidade de violência?
MT: Há um, importante: é o recorde histórico de letalidade policial no primeiro trimestre deste ano, desde 2003. A série histórica começou em 1996. Alguns podem argumentar: “ah, mas o isolamento começou em março, o trimestre considera janeiro e fevereiro também”. Acontece que o mês de março deste ano, já com as primeiras ações de isolamento, também apresentou mais mortes do que março do ano passado (foram 296 este ano contra 255 no ano passado). Há um efeito também de ruas mais vazias, menos testemunhas, por exemplo, como aconteceu com o David Nascimento, 24 anos, negro, que estava esperando um lanche que pediu no iFood na favela do Areião, zona oeste de SP, quando tomou enquadro da PM. Colocaram ele no banco traseiro da viatura e horas depois o corpo dele foi encontrado, segundo a família, com sinais de tortura. O que quero dizer com isso é: a violência policial na quebrada, como sempre aconteceu, não dá trégua nem em tempos de pandemia. Há também um dado interessante sobre o RJ: no início do isolamento, as operações reduziram e as mortes também, ou seja, de fato, há relação direta entre ação policial e morte nas favelas.


NO RADAR

Pouco cobrimos o racismo e o genocídio estrutural. Falaremos deste atual?

► São pretos e pardos 3 de cada 4 mortos por homicídios. E de coronavírus? Não se sabe enquanto se arrasta uma briga judicial para fazer ministério e secretaria de saúde cumprirem a lei que obriga a divulgação de raça. “Neste cenário podemos ter um quadro de genocídio da população negra e periférica, com a absoluta falta de registros para se pensar em políticas de assistência à saúde”, disse à Gênero e Número a defensora pública responsável pela ação, Rita Cristina de Oliveira.

► A Folha tocou no problema mostrando que as valas comuns de Manaus, que hoje causam espanto por serem usadas em massa por conta da doença, são destino dos mortos pela violência.

► Identificar a eugenia e a limpeza social presentes nas ações do governo (e aí falamos do presidente, dos empresários, da política do centrão) está no radar, mas ainda restrito a entrevistas, não em reportagens. Apontou isso o diretor do Hospital das Clínicas, Arnaldo Lichtenstein, em entrevista à Rede Brasil; e Vladimir Safatle e José Gomes Temporão ao blog Inconsciente Coletivo, no Estadão.

Povos originários

► O número de indígenas mortos é subestimado pelo governo, mostra Sonia Guajajara com dados do Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena: são 102, não 23.

► Na falta de ações institucionais, a Aldeia Nova Esperança, no Acre, decretou “lockdown” (bloqueio total) da floresta até o final de maio, sem circulação dos mais de 370 moradores entre a comunidade e a cidade mais próxima, Tarauacá.

Jornalismo

► O jornalismo deve escolher conscientemente e revisar constantemente quais vozes amplificar, diz Jeff Jarvis, professor da Escola de Jornalismo Craig Newmark da City University de Nova York, ao Objethos. Ele experimentou isso na lista com 600 especialistas científicos que criou no twitter para acompanhar a informação científica e a contestação das medidas políticas.

► Cíntia Gomes, da Agência Mural, faz uma reflexão sobre a busca pela equidade no jornalismo em coluna na Folha de SP.

► Pra acompanhar jornalismo do norte do país, tem a lista do twitter da jornalista Jéssica Botelho.

► Natuza Nery, jornalista de política, pediu no twitter indicações de jornalistas locais para acompanhar a cobertura de pandemia.

► Os caminhos para a sustentabilidade do jornalismo durante a pandemia e depois foram discutidos num webinar do ICFJ. Um deles é o matchfund, como o que a Agência Mural está fazendo. Cada R$ 1 doado vira R$ 3 e a meta é arrecadar R$ 30 mil.

► Vice passa a publicar só com freelancers no Brasil. A equipe fixa toda foi demitida.


Acompanhe as últimas reportagens publicadas pela parceria da Énois com Gênero e Número, AzMina e data_labe:

► Os quilombolas organizam ações de saúde pra se defender, mostra a Gênero e Número.

► Levantamento Cfemea/SPW mostra que aborto tem abordagem neutra em 59% das matérias, mas julgamento no STF sobre interrupção da gravidez em casos de zika aumenta pressão da mídia conservadora sobre o tema, na Gênero e Número.  

► Negra e da periferia de Salvador, a doutora em matemática Juliane Oliveira monitora e cria projeções sobre a contaminação do covid-19, na revista AzMina.

► Passagem comprada, procedimento marcado, estava tudo pronto para essas mulheres abortarem legalmente na Colômbia, quando as fronteiras foram fechadas por causa da pandemia, na revista AzMina.

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