Quem normalmente fica nos controles desta newsletter é a Simone Cunha, coordenadora de projetos da Énois. Mas até o fim do ano sou eu, Nina Weingrill, co-fundadora, que vou compartilhar o que estou aprendendo como fellow do ICFJ (International Center for Journalists).

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Estou nos Estados Unidos há pouco mais de duas semanas, com uma bolsa para pesquisar como anda o jornalismo local durante o governo Trump. O programa do qual participo se chama A Digital Path for Entrepreneurship and Innovation in Latin America – um caminho digital para inovação e empreendedorismo na América Latina. Junto com outros 17 jornalistas hermanos (nenhum jornalista negro, devo reforçar), cada um de nós com sua linha de pesquisa, estou mergulhando nesse universo paralelo (e às vezes invertido) que é a mídia norte-americana.

Tive o privilégio de poder selecionar a organização que iria me receber. Ficarei por um mês em Chicago, explorando as estratégias, modelo de negócio, programas, parcerias e gestão do City Bureau, uma ONG que trabalha misturando jornalistas e moradores do sul da cidade para fazerem uma cobertura local e diversa. Ou como eles mesmo dizem: “jornalismo feito para Chicago, por Chicago”. Uma provocação para a mídia tradicional, que emprega poucos negros e latinos – e fala pouco sobre as comunidades e bairros mais pobres.

Por ora, três coisas interessantes que pude observar e que servem de inspiração pra quem está aí tentando fazer o jornalismo sair dos aparelhos (alô jornalistas demitidos de grandes redações e amigos que cobrem as periferias):

1. Formação direcionada: assim como nós, na Escola de Jornalismo, o City Bureau treina jovens dessas comunidades em jornalismo (são ciclos de 10 semanas). Durante esse período, os jovens, além das aulas, produzem reportagens que são publicadas em veículos da cidade. Todos do programa estão cursando faculdade, então o foco do treinamento é aprender a cobrir o bairro. Ou seja, têm como premissa ouvir as necessidades das comunidades a que servem. Os produtos jornalísticos que saem dessa experiência são, de fato, muito inovadores em formato e linguagem. Por exemplo esse guia/zine (abaixo) que explica o funcionamento do sistema judiciário para familiares de jovens que estão presos. Tem desde um glossário de palavras jurídicas até um formulário que ajuda a família a não perder datas para pedidos de habeas corpus. Foi distribuído como encarte de um jornal impresso local.

2. Escalabilidade: em um de seus programas mais importantes, o Documenters, o City Bureau treina e remunera pessoas da sociedade civil para cobrirem reuniões e assembleias públicas. Hoje já são 500 correspondentes em todas as áreas da cidade que se deslocam para relatar encontros públicos onde decisões são tomadas. De comitês de finanças públicas a conselhos escolares, cada correspondente recebe US$ 15 por hora de reunião atendida (com relato entregue). Para organizar essa agenda, o CB irá lançar um aplicativo que mapeia (via scrapping) todas as reuniões públicas do município. Como no Brasil, essas reuniões públicas não têm agenda pública e de fácil acesso. Os correspondentes assinalam em que reunião querem estar e o sistema sinaliza quais reuniões não estão sendo cobertas por ninguém. Os relatórios são utilizados como base de dados para reportagens e vão alimentando um banco de pautas.

3. Abertura de processos e diálogo com a comunidade: eles sabem que não vão dar conta de cobrir sozinhos as comunidades atendidas. Então uma vez por semana, o CB é anfitrião de uma reunião aberta entre jornalistas, “documenters” e membros da comunidade (arquitetos, donas e donos de casa, comerciantes locais, jovens, etc). Essas reuniões são estratégicas para que a comunidade se enxergue e discuta problemas. Mas o que achei interessante da proposta é que cada reunião propõe um mão-na-massa. Alguém que manja muito de algum assunto, como por exemplo a Lei de Acesso à Informação, vem ensinar como as pessoas acionam o governo com perguntas certas para obter dados públicos.

Claro que preciso reconhecer que muito disso já acontece de formas diferentes no Brasil (já falamos sobre iniciativas como o Historiorama, na zona sul de SP). Mas estou muito inspirada pela forma integrada de conectar política, jornalismo e comunidade que o City Bureau criou para evoluir no debate sobre a importância de se cobrir comunidades. Devo trazer novidades nas próximas semanas – enquanto aproveito para conhecer iniciativas irmãs em outros municípios.

Espero que curtam essa viagem. Sugestões ou perguntas sobre esse rolê, podem mandar pra mim: nina@enoisconteudo.com.br

NO RADAR

► É preciso ter a intenção de alcançar a diversidade. E esse é o primeiro passo pra incluir – criar condições pra cada um estar confortável sendo quem é e apoiar os outros. A conclusão é de um painel com esse tema no Journalism and Women Symposium (JAWS). A discussão também rendeu uma lista de medidas práticas a serem implementadas.

► A distribuição de notícias é ainda mais desigual que a de renda no meio digital, segundo um estudo feito no Reino Unido. Medindo a quantidade de fontes de informação semanal, eles concluíram que em vez de democratizar a informação, a redução do alcance das TVs e dos tablóides fez com que a desigualdade crescesse, já que nenhum veículo online ocupou o espaço. Nenhuma das marcas de tradicionais notícias é mais reconhecida entre a população de renda baixa do que a de alta e a busca de informação diretamente nas páginas dos veículos é menos provável entre os mais pobres. É importante dizer que a pesquisa mediu o acesso a sites ingleses tradicionais de imprensa como BBC, Guardian, The Sun e The Mirror, não menciona veículos locais e alternativos.

► 1.300 comunidades perderam a cobertura jornalística e viraram desertos de notícias, aponta um estudo da escola de mídia da Universidade da Carolina do Norte, publicado no site Poynter. Os achados indicam que cerca de 10% dos jornais locais fecharam ou se fundiram desde 2004 e centenas viraram jornais fantasmas. O impacto é direto na vida das pessoas. Segundo os pesquisadores, os desertos de notícias têm população mais pobre, idosa e com menor nível educacional que a média do país – ou seja, são cidadãos mais vulneráveis.

► Uma iniciativa inovadora junta 19 redações para cobrir desigualdade econômica na Filadélfia, o Broke in Philly. É um projeto de um ano e meio e vai explorar a justiça econômica e as saídas que estão sendo encontradas pra enfrentar as dificuldades na cidade mais pobre entre as 10 maiores do país. O trabalho em conjunto rendeu até um guia para orientar a linguagem da cobertura.

Esse conteúdo faz parte da Diversa, a newsletter da Énois que investiga e mapeia a diversidade no jornalismo do Brasil e do mundo. Inscreva-se para receber.