Entendendo que a imprensa precisa pautar o debate político e eleitoral sobre os problemas estruturais e o contexto histórico das periferias de São Paulo, um grupo de coletivos de jornalismo das periferias resolveu se articular.

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O #nocentrodapauta é Alma Preta, Casa no Meio do Mundo, Desenrola e Não me Enrola, Imargem, Historiorama, Periferia em Movimento e TV Grajaú unidos para fortalecer a distribuição e o interesse sobre as pautas das periferias no cenário pré-eleitoral.

Eles não falam necessariamente de candidatos e partidos, mas sobre o quê esses atores deveriam olhar – e ajudam a população a criar consciência disso. O Grajaú, um dos distritos mais populosos da cidade, fica em área de manancial e tem um histórico de invasões, disputas de território e instabilidade das moradias, ao mesmo tempo em que faltam políticas públicas que levem em conta meio-ambiente e habitação, mostra reportagem do Periferia em Movimento. O Info Território, do Desenrola e Não me Enrola, está levantando dados das regiões com menor índice de desenvolvimento da cidade para nortear as tomadas de decisão nas periferias.

No Brasil, mais de metade das cidades (2.879) e cerca de 40 milhões de habitantes vivem em desertos de notícia. Ou seja, não possuem jornais, sites de notícias e emissoras de TV ou rádio na região em que moram, segundo o Atlas da Notícia, levantamento do ProJor.

Para piorar a situação, mesmo onde está, a imprensa também não garante o fortalecimento da democracia, da circulação de informações e de conhecimento sobre o território.

Nos EUA, uma pesquisa publicada este mês analisou reportagens de 100 veículos locais por uma semana para ter uma ideia de que tipo de conteúdo era produzido por ali. Descobriu que em 20 não haviam histórias locais e só um quarto das histórias recebidas nesse tempo pela comunidade tratavam efetivamente de questões vividas na região.

É o que percebemos em relação à cobertura brasileira, com base num senso comum, e que também já foi detectado em pelo menos uma pesquisa sobre o assunto. No Rio de Janeiro, o pesquisador Gabriel Braga Mendes verificou um distanciamento entre os grandes jornais cariocas (OGlobo, Dia e Jornal do Brasil) e a população nas eleições para deputado estadual, em um estudo feito em 2006.

Cruzando dados sobre os deputados que foram foco das matérias e a votação, viu que os criticados pela imprensa ganharam votos e os elogiados perderam eleitores. O motivo mais provável para esse paradoxo é que os grandes jornais do Rio deram visibilidade (positiva ou negativa) a um grupo muito restrito de deputados estaduais, deixando a imensa maioria do Parlamento descoberto. Na TV, que alcança uma parcela bem maior da população, a situação foi pior: 41 deputados estaduais candidatos à reeleição sequer foram mencionados.

Na tese “Notícias de Segunda Mão: os jornais locais e a cobertura política”, o pesquisador Eduardo Nunomura investiga como alguns jornais locais cobriram o impeachment da presidente Dilma: pelo viés nacional, constata. Os seis jornais analisados reproduziram, com ângulos praticamente idênticos e sem contextualização local ou regional, o discurso de Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo. Ele analisou que cerca de 90% desse material é proveniente de agências de notícias ou da internet, e isso vale também para economia, esporte, internacional ou cultura.

O senso comum de que a imprensa local fortalece a democracia é comprovado por pesquisas na Noruega e da Inglaterra. Analisando 150 jornais locais, em 2011, os economistas Christian Bruns e Oliver Himmler descobriram que o aumento na circulação deles está associado a níveis mais elevados de eficiência dos governos locais. Em 2016 eles viram que até a propensão de pagar por notícias se eleva quando há percepção de que o jornalismo é um vetor importante para a fiscalização e tem impacto direto na sociedade. Ou seja, o jornalismo local de qualidade leva ao engajamento cívico e à cidadania, e o fortalecimento do jornalismo como pilar da democracia fortalece ele mesmo.

NO RADAR

  • Dá pra conversar com eleitores de Bolsonaro? – O El País encontrou, entre os jovens das periferias de Porto Alegre, um grupo bastante disposto conversar e justificar porque apoiam Bolsonaro. A repórter Naira Hofmman partiu de pesquisas das antropólogas Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco, que dizem que “eles não são fascistas, pelo contrário, tem argumentos para defender sua posição”.
  • Devemos cobrir o extremismo de direita? – É a pergunta direta que um artigo da revista Columbia Journalist Review tenta responder. E é difícil chegar a uma conclusão porque se trata de antever que impactos a cobertura terá. Geralmente a escolha é por não cobrir atos de grupos extremistas ou apenas reportá-los sem dar espaço para os participantes. Whitney Phillips, que estuda manipulação da mídia há dez anos e é professora da Universidade de Syracuse, recomenda cuidado ao se considerar argumentos que parecem racionais para defender o orgulho branco como sendo o mesmo que o negro. O repórter John Sepulvado, que cobre militarismo de direita desde 2014, acredita que é preciso “respeitar a ameaça que essas pessoas representam e contextualizar”, nunca ignorar. Olhando com profundidade para os argumentos, eles caem e assim o trabalho do jornalismo é feito: “é documentar a condição humana, mesmo as partes feias”.
  • Uma experiência de colaboração entre a imprensa para a conscientizar o voto – O Voting Block é um projeto de colaboração entre mais de 20 veículos – tradicionais, étnicos e hiperlocais – para fomentar a discussão sobre política. Cada publicação está escrevendo perfis e sediando um jantar de conversa sobre o tema, formando um banco de conversas e reportagens sobre o encontro e o diálogo político. Lá, uma chefe nigeriana, uma ativista chinesa e um republicano muçulmano dividiram suas ideias sobre a eleição para governador de Nova Jersey. Um texto do American Press Institute traz um pouco da estrutura do projeto e levanta questões como qual a função de cada tipo de organização na parceria e o que ela rende.
  • (Des)igualdade de gênero na imprensa – As mulheres só conseguem igualdade na imprensa da Noruega quando se trata de cidadãos comuns, crianças e das matérias sobre estilo de vida. A conclusão é da pesquisa Vozes femininas nas notícias, que analisou mais de 9 mil fontes, em mais de 5 mil notícias em 75 publicações, com reconhecimento de gênero computacional.
  • Jornalismo local se modifica com a crise – A crise da grande imprensa está dando combustível ao jornalismo local nos EUA, diz um artigo do Poynter. Eles analisam o desenvolvimento de organizações locais e veem que a cobertura é diferente das organizações tradicionais desses locais e, pelo menos nos casos citados (que incluem iniciativas como  City Bureau, Madison 365, MLK 50 and Project Q Atlanta), tendem a “substituir e – em alguns casos extrapolar – o jornalismo local perdido”.
  • Os assistentes de voz podem piorar a diversidade no jornalismo? – A Repórteres sem Fronteiras, ONG que defende a liberdade de informação, acha que sim. Eles “ameaçam a pluralidade das notícias e da informação”. Ao responder ao usuário “quais são as últimas notícias?”, os assistentes Alexa, da Amazon; Siri, da Apple; e o Google Assistent, por padrão dão as notícias da NPR, veículo de comunicação pública dos EUA. “Personalizando a distribuição de notícias sem deixar espaço para acaso e diversidade e o que está disponível, os assistentes de voz devem reforçar os métodos de distribuição de conteúdo opacos e mercadológicos que já existem”, diz Elodie Vialle, diretor de jornalismo e tecnologia da RSF.
  • A Abril faliu por não ver o Brasil – A Abril fechou 15 revistas em agosto, demitiu centenas de jornalistas e outros profissionais e pediu recuperação judicial dez dias depois. O que para alguns foi uma perda cultural, para outros como Denis Russo é sinal de que a editora parou de enxergar o país.

Esse conteúdo faz parte da Diversa, a newsletter da Énois que investiga e mapeia a diversidade no jornalismo do Brasil e do mundo. Inscreva-se para receber.