O impacto da Covid-19 na vida pessoal e profissional dos jornalistas que precisam sair às ruas para cobrir a pandemia


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Jornalistas e redações da FolhaEstado de Minas e Agência Mural têm compartilhado mudanças nas rotinas de produção de reportagens. Mas será que os editores, coordenadores e parceiros das redações estão perguntando uns aos outros – e até a si mesmos – vocês estão bem? (Eu adoraria saber como está o dia a dia da cobertura de cada redação, em on ou off, mandem seus relatos.) Na Énois fazemos uma reunião semanal pra que cada um responda isso: chama-se café com afeto e começa com a cor e palavra do dia de cada um.

Mas dá tempo de pensar em humanidade enquanto há uma crise de saúde mundial em um país com estrutura social e de condições de tratamento desiguais e uma crise política abalando o governo? O racional diria que não. Mas jornalistas são apenas seres humanos, embora muitas vezes a cultura jornalística e das redações os digam que têm de passar por cima disso. Não têm.


A SAÚDE MENTAL DOS JORNALISTAS EM TEMPOS DE COVID-19

Sofrimento e Prazer no trabalho do jornalista é o mote da tese que a jornalista Cristiane Oliveira Reimberg defendeu no doutorado na Escola de Comunicação da USP. Membro do GT Saúde, Trabalho e Direitos Humanos do Instituto Sedes Sapientiae, ela lembra que cobrir a crise e ter a vida pessoal misturada ao trabalho podem levar os jornalistas a adoecer, e a cultura de competitividade e violência dentro das redações são chave para piorar a situação.

Ela respondeu à Diversa sobre o cuidado com os jornalistas durante o fim de semana. A conversa foi editada para ficar mais curta e objetiva.

Cristiane Oliveira Reimberg, jornalista

Diversa – Quais os principais desafios à saúde mental dos jornalistas durante a cobertura do coronavírus?
Cristiane – Quando realizamos nossa pesquisa sobre o sofrimento e prazer no trabalho do jornalista, tivemos relatos sobre o impacto que a cobertura de catástrofes, acidentes aéreos e guerras trazem aos jornalistas. Essa pandemia, assim como esses eventos, traz um cenário que foge da normalidade e pode impactar a saúde mental deles. Há o temor de contaminação pelo SARS-CoV-2 e de levar a doença para seus familiares. Este cenário pode levar a um sofrimento mental. Já o contato com situações traumatizantes pode levar a um futuro quadro de Transtorno de Estresse Pós-Traumático – TEPT ou vicário, que atinge quem ouve muitos relatos trágicos. Não chegamos ao ápice da Covid-19 no Brasil e temos vistos cenários graves em relação ao número de mortos em outros países, que podem se repetir aqui. Outra questão é o aumento da jornada de trabalho e das pressões, que pode levar ao cansaço mental, a fadiga e até mesmo ao esgotamento profissional.

D – O trabalho em casa dá ainda mais margem à ampliação de jornadas e pressões de trabalho. Como lidar com isso quando se tem um papel de serviço a prestar?
C – No caso dos jornalistas que trabalham em casa, pode haver sobrecarga, falta de condições ergonômicas, o uso de recursos próprios para realizar o trabalho como computador, internet e telefone. Além disso, aumentam-se as pressões para a produção e o trabalho acaba se sobrepondo a outros aspectos da vida e a pessoa não consegue se “desligar”. Pode haver uma sensação de falta de tempo, de não dar conta de realizar o trabalho diante de tantas informações e do papel do jornalismo de informar as pessoas. Se não vejo meu trabalho alcançar o resultado esperado, pode haver uma sensação de impotência, ansiedade, abrindo as portas para o adoecimento mental. O jornalismo tem um papel importante de informar a sociedade sobre o que está acontecendo durante a pandemia, os riscos, a superlotação de hospitais, a relação das mortes com a desigualdade social e tantas outras questões, mas não podemos esquecer que o jornalismo é feito por pessoas, que têm suas limitações e temos que estar atentos aos nossos limites para não adoecermos.

D – De que forma as redações podem e devem apoiar os jornalistas em termos psicológicos nesse momento?
C – Não sei dizer se há empresas jornalísticas que dão apoio psicológico aos jornalistas, mas esta necessidade chegou a surgir nas entrevistas quando realizei minha pesquisa de doutorado: de que as empresas deveriam dar o apoio psicológico profissional em determinadas situações. Um aspecto fundamental é como se dá a organização do trabalho. A autonomia e a coletividade são estimuladas? A organização está atenta para que não ocorra assédio moral ou estimula a concorrência com políticas agressivas e de competitividade, que permitem a perpetuação dos diversos tipos de violência no trabalho? Essas questões devem ser pensadas em todo momento.

D – E nas redações pequenas, de novas iniciativas e periféricas, como se dá essa organização?C – Uma das grandes dificuldades de redações pequenas, de novas iniciativas e periféricas é como se financiar. Pela pesquisa de doutorado que fiz, essas iniciativas conseguem estimular a autonomia no trabalho e os laços de solidariedade entre os jornalistas em um cenário que não há competitividade como nas grandes empresas. A chance de uma rede de apoio entre os colegas é maior. Há ainda uma organização do trabalho que privilegia a criatividade e o papel do jornalismo em informar à sociedade sobre seus direitos. Mas o jornalista é um trabalhador e precisa de um salário digno, dos seus direitos preservados. A flexibilização e precarização do trabalho atinge a todos.


NO RADAR

SUS

► Juntar os leitos de UTI público e privados poderia garantir o atendimento de quem precisa e não pode pagar. “Os planos de saúde têm disponíveis quatro vezes mais leitos do que o SUS. É uma discrepância muito grande”, diz ao Nexo o médico Leonardo Mattos, pesquisador do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos integrantes da campanha Leitos para Todos. 

► Como garantir que não haverá discriminação se os médicos tiverem de escolher quem tentar salvar devido à falta de leitos? É o que questiona reportagem da Pública que mostra a falta de protocolos.

► Menos de 10% dos municípios brasileiros com terras indígenas possuem leitos de UTI, mostra estudo da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep) noticiado pela Agência Pública.

► Produzido antes da pandemia, o documentário Plantão Judiciário, mostra famílias que precisam recorrer ao judiciário para conseguir um leito de internação. Foi lançado esta semana no canal do Youtube do jornalista Daniel Brunet.

► Sem equipamentos de proteção, há reúso de aventais e máscaras e contaminação de pacientes e da equipe no hospital da zona leste de São Paulo Tide Setúbal, mostra El País com relatos de profissionais.

Direitos Humanos

► Resposta ao coronavírus pode ferir direitos humanos. “É uma hipocrisia querer exigir, de maneira sustentável, que os moradores de uma favela fiquem em isolamento social por tempo indefinido ou que tenham que manter higiene adequada sem possuir acesso à água potável ou saneamento básico”, diz Paulo Abrão, secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ao Nexo.

Periferias

► A letalidade da Covid-19 em periferias de São Paulo é 5x maior que a média do Brasil. As periferias das zonas norte e leste são as mais afetadas, mostra levantamento da Agência Mural. E quanto menor a renda, maior o impacto da pandemia, mostra pesquisa Heliópolis contra o coronavírus

Raull Santiago repercute a discussão de costureiras sobre venda de máscaras, que sai entre R$ 1 e R$ 5 na venda direta e R$0,20 em escala para empresas e governo. 

Política

Agência Pública mostra que as carreatas contra o isolamento social estão diretamente ligadas a políticos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Curitiba. 

Jornalismo Pós-Coronavírus

► A crise do jornalismo se agrava com o coronavírus e vai fechando veículos de tamanhos e perfis variados. Quais os caminhos de ajuda à indústria jornalística? O painel de especialistas ouvidos pela Columbia Journalism Review aponta que o jornalismo local tem de ser financiado pelo governo, os meios devem ser dos próprios jornalistas e as plataformas, fundações e empresários precisam contribuir para manter o campo. 

A liberdade de imprensa no país e no mundo está ainda mais ameaçada por conta do coronavírus, mostra a Repórteres Sem Fronteiras. A próxima década será decisiva. 

Acompanhe as últimas reportagens publicadas pela parceria da Énois com Gênero e Número, AzMina e data_labe:

Isolamento, medo da Covid-19 e desemprego afetam saúde mental na periferia. data_labe para UOL.

Pandemia dificulta acesso a contraceptivos quando mulheres mais precisam evitar gravidez, na revista AzMina.

“O coronavírus não tem nada de democrático. Ele tem ‘preferências’, e os negros são um dos grupos preferidos dele”. Gênero e Número entrevista Lúcia Xavier, coordenadora da ONG Criola, sobre a importância da divulgação dos dados de raça/cor na pandemia.

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