Entre as notificações de bom dia no grupo de família, uma mensagem chama atenção: um projeto de lei quer legalizar a pedofilia. A imagem gera indignação e discussões começam a borbulhar. Mas como outras tantas mensagens que circularam no WhatsApp durante o período eleitoral de 2018, ela também é falsa.

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Os boatos e mentiras produzidos na rede aumentaram drasticamente no ano passado (o projeto “Eleições sem Fake”, da UFMG, registrou cerca de 800 mil mensagens falsas durantes as eleições) e as “fakes” colocaram lenha na fogueira do contexto político já muito conturbado. Uma maneira eficaz de comunicação foi usada para influenciar votos de forma voluntária e também profissional – agências de marketing especializadas em viralizar mensagens no aplicativo e fraudes em CPFs colaboraram com um verdadeiro tsunami de desinformação.

Prevendo que o aplicativo seria a maior fonte de informação de moradores das regiões periféricas durante as eleições (o aplicativo tem contrato com operadoras e não consome dados de internet, ou seja, é gratuito mesmo para quem não tem internet no celular), a Escola de Jornalismo da Énois e o Data_Labe lançaram o ChecaZap, o primeiro projeto de checagens de notícias a atuar dentro do WhatsApp no Brasil.

Dez estudantes de jornalismo das periferias de SP e cinco do RJ entraram em 370 grupos públicos de WhatsApp entre agosto e outubro para mapear quais eram as principais notícias falsas circulando, checar e devolver aos mesmos grupos a informação correta. Mas para além disso, o projeto se propôs a entender como a checagem, quando entregue no mesmo ambiente em que a notícia falsa foi disseminada, poderia gerar uma mudança de comportamento no compartilhamento de informação. Principalmente em contextos periféricos.

Cerca de 20 mil mensagens foram compartilhadas diariamente nos grupos monitorados. E para além deles, o ChecaZap teve 600 assinantes em 27 estados. O projeto terminou no 1° turno das eleições e, no dia 07 de outubro, o celular travou, bombando com mais de 100 mil mensagens.

Abaixo, um resumo do que aprendemos com o projeto:

Veja também | Passo a passo: Saiba como não cair em uma notícia falsa.

1 – PARECE FAKE, MAS NÃO É

A primeira coisa que o grupo decidiu foi que não adiantava dar a chamada e levar o usuário para um site fora do WhatsApp. O problema era óbvio (para os jovens): as pessoas não tinham internet. Elas tinham WhatsApp (por causa do contrato do Facebook com as operadoras que disponibiliza acesso às redes sociais mesmo se o usuário não tem pacote de dados). Então toda informação tinha que caber em um ou dois parágrafos. E mais: ser simples, divertida e usar das mesmas estratégias que as fake news. Ou seja, parecer fake – com imagens feitas por apps, gifs e muitos emoticons. Tipo isso daqui:

A diferença é que a gente assinava no final do texto, com nome e contato do projeto, e também enviava o leitor direto para nossas fontes, por meio do ‘Cheque Você Mesmo’, com links de como fizemos aquela checagem – e produzimos também um vídeo com as principais dicas pra você não cair em uma notícia falsa.

2 – ABRIR AO INVÉS DE FECHAR

Contemporâneo ao ChecaZap, o Comprova juntou 24 organizações de mídia para fazerem um trabalho conjunto de checagem. Foram publicadas 146 histórias para desmentir ou confirmar informações que viralizaram. No entanto, muitos portais ainda mantinham paywall para acesso do seu conteúdo completo (e não só da checagem). Ou seja, se você não tem internet no celular ou não é assinante dos veículos, chances são que você ficou sem parte da informação correta.

Nossa aposta foi distribuir. Checamos 37 notícias (praticamente uma por dia, durante 40 dias de projeto), que foram distribuídas nos canais parceiros HuffPostQuebrando o Tabu e CBN – todos com acesso gratuito. Atingimos, com isso, mais de 500 mil pessoas diretamente. Em transmissões na CBN – onde compartilhamos as checagens da semana – foram 335 mil pessoas alcançadas em SP e 133 mil no RJ em média, também semanalmente.

Isso deu ao projeto mais fôlego e alcance. A cada publicação nova nos canais, mais assinantes apareciam para receber as checagens diretamente pela lista de transmissão.

3 – ESTAR ONDE O POVO ESTÁ

Inesperado por quem não olhava para o contexto das redes, foi nas mídias sociais, onde 72% dos brasileiros se informam confiam, mais exclusivamente no WhatsApp, que a eleição foi decidida. Mas demorou pros jornalistas olharem para o conteúdo que vinha dessa rede – principalmente por não fazerem parte dos grupos mais ativos nas classes mais baixas.

Muito antes da Folha de SP publicar as campanhas contra o PT bancadas por WhatsApp por empresários, em 18 de outubro, nós recebemos no final de julho, em um dos grupos monitorados, uma campanha para que usuários instalassem em seus computadores um robô que “combatia” notícias falsas contra Bolsonaro pelas redes sociais. O aplicativo, no entanto, compartilhava fake news automaticamente para os contatos do usuários no Facebook e, ao ser instalado, tinha acesso a todos os dados do mesmo – e possivelmente à sua câmera e computador.

Publicamos a reportagem no The Intercept, em 23 de agosto, apontando que uma empresa, de Ji-Paraná, em Rondônia, era responsável pela criação do Bolsocop. Os donos alegaram que haviam feito o robô de forma voluntária, sem envolvimento com a campanha.

O Bolsocop não chegou a fazer sucesso porque, logo após a denúncia, o Facebook conseguiu derrubar o aplicativo. Estar presente nos grupos onde as massas estavam se comunicando nos deu a possibilidade de prever e acompanhar como seria a dinâmica das eleições. E, portanto, de fazer mudanças mais efetivas a partir do trabalho jornalístico.

4 – CADÊ O CONTEXTO?

Uma fake sobre a Ficha Limpa que foi amplamente compartilhada nos grupos afirmava que alguns candidatos não poderiam concorrer pois estavam respondendo a processos de improbidade administrativa (no caso, o único que aparecia como Ficha Limpa era o Ciro Gomes).

A resposta óbvia dos checadores foi dizer quem era ou não réu – e esclarecer que todos poderiam concorrer enquanto não havia condenação. Mas ao acompanharmos as discussões dentro dos grupos ficou claro que não bastava fazer fact-checking. Era preciso explicar o contexto: o que é essa Lei e como ela funciona.

Nem sempre o fact-checking é suficiente para trabalhar a desinformação, porque entender ou não a explicação depende do repertório de quem a está recebendo – o que seria o “básico 1” do jornalismo, mas que nem sempre é levado em conta pelos jornalistas ao produzirem informação.

5 – USO DE LINKS DE NOTÍCIA

Apesar de, como ChecaZap, entendermos que o compartilhamento de links noticiosos que levavam o usuário para fora da internet era pouco eficiente para os públicos de classes mais baixas – por consumir pacote de dados –, fizemos uma parceria com o projeto Truth Buzz da ICFJ. O projeto levantou quantos dos links compartilhados eram de sites jornalísticos.

Foram analisadas mais de 190.000 mensagens compiladas durante 43 dias de ChecaZap. A seguir, parte do relatório feito pelo jornalista Sérgio Spagnuolo e sua conclusão:

“No total, cerca de 30.430 links foram compartilhados entre os grupos abertos ao longo do período. No geral, o número mais significativo é que 10% do total de mensagens continham um ou mais links.

Nossa pesquisa identificou que, dos 11.455 links únicos compartilhados na amostra, metade desses links (5.704) eram de organizações de mídia, incluindo mídias sociais e sites de notícias. Uma parte considerável do total links eram lixo, URLs com spam (como convites para baixar um aplicativo ou comprar alguma coisa) ou de sites não relacionados à imprensa, como o site do Tribunal Eleitoral Brasileiro.

Links para o YouTube foram os mais frequentes, com cerca de 2.000 links compartilhados – isto é, 35% de todas as URLs exclusivas compartilhadas em todos os grupos analisados ​​do WhatsApp. Seguido pelo Facebook e pela Bitly (encurtador de links).

Em termos de conteúdo de notícias, o G1 foi a fonte mais comum de links compartilhados. E o número combinado de links do UOL e Folha de S.Paulo superou um pouco os do G1.

No geral, os links de sites são uma ferramenta constantemente utilizada, presente em uma de cada 10 mensagens – considerando que as pessoas também compartilham textos triviais, não conversacionais (como xingamentos, saudações, etc.) e arquivos de mídia (áudio, vídeo e imagens representaram 23% do conteúdo compartilhado na amostra).”

A pesquisa não se debruçou em mapear se o compartilhamento no WhatsApp tinha impacto no acesso dos sites de notícia.

5 – WHATSAPP NÃO É PRA ISSO (pelo menos por enquanto)

Nas últimas semanas de trabalho, o WhatsApp travou absurdamente por conta da quantidade de grupos e de mensagens. O processo de encaminhamento das mensagens nos grupos era manual, então não conseguíamos selecionar todos os grupos de uma vez. E como eram 370, muitos atualizavam enquanto estávamos enviando a mensagem para outros, o que dificultava muito nosso trabalho e a produção de novas checagens.

Para fazer essa administração instalamos o WhatsApp Business, que permite separar os grupos e criar listas de transmissão por etiquetas. Mesmo assim, o aplicativo não deu conta da quantidade de mensagens atualizadas simultaneamente, e o gerenciamento dos envios era prejudicado cada vez que o celular travava. E não, a versão business não pode ser gerenciada pela desktop. Então tudo tem que ser feito pelo celular.

A plataforma também não disponibiliza quantas vezes chegou o mesmo conteúdo em todas as conversas, nos grupos e em mensagens privadas. Esse trabalho foi feito pela equipe do Eleições sem Fake, da faculdade da UFMG, que criou uma API para identificar quais eram as mensagens em imagem, áudio, texto, vídeo que mais circularam naquele dia nos grupos que estávamos monitorando. Sem esse indicador, seria impossível criarmos algum critério para avaliar o que era mais importante de ser checado na semana.

Reportamos esses impedimentos ao WhatsApp, que nos respondeu sempre alegando que o aplicativo não havia sido construído com esse intuito. Ao mesmo tempo em que lançavam novas funcionalidades para reduzir ainda mais a quantidade de compartilhamento das mensagens – para diminuir a propagação de desinformação.

Ou seja, enquanto a gente remava numa direção, o próprio aplicativo remava em outra. Mas o Facebook já disse que mudanças que vão agregar os serviços devem chegar em breve. Aguardaremos ansiosos (e críticos também).

NO RADAR

► O Zimbábue tem uma população de 16,7 milhões e quase 100% têm acesso à internet móvel. Por isso, veículos de mídia estão usando o WhatsApp para distribuir notícias enquanto o governo censura e persegue jornalistas que denunciam abusos e crises. Os pacotes cobrados pelas operadoras para que o usuário acesse o aplicativo custam entre 0,50 e 1 dólar por semana – uma vantagem para um país que tem maioria de desempregados. O 263Chat, uma plataforma de notícias local, iniciou seus grupos do WhatsApp em 2014. Hoje, o número total de inscritos é de 29 mil. Eles recebem um PDF em baixa resolução (2,7 MB), de cerca de 20 páginas, com as notícias do dia. (Via NeimanLab)

► Parceria da BBC Londres com 102 organizações de jornalismo local ajudou o veículo a enxergar padrões de histórias para além da capital e fazer análises mais profundas sobre temas recorrentes. “As pessoas podem agora não só ver a imagem geral, mas também mergulhar em como ela é apropriada e relevante para a área onde vivem”, disse Matthew Barraclough, diretor de parcerias da BBC. Ainda como resultado, Barracalough aponta o fato de poder se conectar diretamente com leitores que hoje não acessam a BBC. (Via Journalism.co.uk)

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