Raça é assunto pouco frequente no jornalismo, raramente discutido seja nas reportagens publicadas, durante a construção das pautas ou internamente, entre a equipe. A representatividade racial é baixa nas redações, os jornalistas negros que estão nelas ganham menos e têm menos tempo de redação que os brancos. É o que vimos por meio da pesquisa Raça nas Redações, que colocamos na rua em maio e recebeu por volta de 200 respostas até o momento em que fechamos a Diversa – ela continua aberta, por favor respondam e compartilhem.

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Para elevar a representatividade na pesquisa, buscamos ativamente profissionais negros para responder o questionário: além de lançar a pesquisa nas redes e divulgar, listamos os jornalistas negros que conhecíamos, entramos em contato para que respondessem e pedimos indicação de outros para ampliar a rede.

Até agora, tivemos mais de 40% das respostas de jornalistas negros (90 dos 200), praticamente o dobro da proporção nas redações (pela pesquisa de perfil dos jornalistas, da Fenaj e UFSC). Os brancos foram perto de 60% dos respondentes.

Esses jornalistas apontaram que a maior parte das redações não tem políticas voltadas à representatividade. O mais comum é haver espaço para discussão em grupos dos funcionários, campanhas e palestras sobre preconceito e desigualdades de gênero, raça e orientação sexual. O que já indicia um começo de conversa.

Num patamar adiante, há veículos que buscam contratar profissionais das periferias e negros e que discutem as pautas coletivamente para que as abordagens sejam construídas em conjunto. Os jornalistas negros apontam, na pesquisa, que se preocupam em colocar raça e outras perspectivas da realidade social como recorte das pautas. Entre as contribuições que citam ao jornalismo está a racialização das pautas, a discussão de direitos humanos, desigualdade social e de gênero e a busca de fontes mais diversas.

Os jornalistas negros fazem a conversa sobre raça se tornar mais frequente com colegas e chefia – para 40% deles é o caso, e para os brancos, 25%. Sobre a abordagem da raça nas pautas, a divisão dos perfis raciais foi parecida em termos de frequência, com os brancos se destacando no “de vez em quando”.

Por volta de 40% disseram já ter sofrido preconceito racial. “Acharem que não tenho cara de jornalista” foi um comentário ouvido por vários profissionais negros. Uma repórter negra viu a chefia surpresa por escrever bem e vários indicaram serem mais cobrados ou preteridos em pautas importantes, em relação aos brancos. Piadas sobre o cabelo, a cor e pedidos para buscar café, como se o lugar da pessoa negra fosse o de servir, também foram apontadas por vários jornalistas. Um relatou ter sido acusado de dar muito espaço a artistas negros. Outros veem racismo na reserva de espaços aos negros: ser chamado para uma vaga para preencher cota ou indicado apenas para fazer reportagens sobre racismo “por acharem que só eu entendia disso”.

Os negros ganham menos, são mais jovens e estão há menos tempo nas redações que os brancos que responderam a pesquisa. A faixa de idade mais baixa dos jornalistas negros pode ser um reflexo da rede da Énois, formada por jovens.

Os profissionais negros trabalham há menos tempo nas redações (35% há menos de 3 anos, enquanto os brancos são menos de 20%) e também há mais freelancers entre eles (perto de 30%, contra menos de 10% dos brancos). A maioria deles ganha até 3 salários mínimos (faixa de menos de 25% dos brancos) e só 15% recebem mais de 5 salários (entre os brancos, é perto de 40%).

NO RADAR

► Uma pesquisa tentou mapear o perfil dos repórteres que iriam cobrir as eleições dos EUA em 2016 para ver se havia equipes diversas, capazes de retratar a complexidade e as diferentes questões da população. De 15 grandes redações contatadas, só 4 responderam diretamente, sendo que em off e conversas informais esse perfil era facilmente levantado. Abrir os dados sobre as equipes e as decisões de formação deles ajuda as redações que querem melhorar a diversidade e gera dados para pesquisadores e a audiência, diz Farai Chidea, autor da pesquisa publicada pelo Shorenstein Center. O jornalismo cobra transparência, mas não segue os mesmos padrões. Nas conversas com os editores, ficou claro que diversidade é uma questão para as próximas eleições de lá, em 2020. “Independentemente de raça, gênero, etnia de jornalistas, precisamos refletir a diversidade do eleitorado e do país como um todo, e explicar e entender o que essas pessoas estão dizendo e exigindo”, diz Lee Horwich, editor de política no USA Today.

► A fellowship Maynard 200 quer capacitar 200 jornalistas com perfil diverso nos próximos 5 anos: na reportagem, chefia ou empreendedores para fortalecer a representatividade nas redações no futuro. É que as demissões de jornalistas dos últimos anos foram piores para negros e diversos relatórios mostram que o ambiente das redações não é amistoso para profissionais negros buscarem promoções, nem mesmo nas novas organizações. O diagnóstico deles é que o discurso moral e financeiro não teve efeito na abertura das redações para a valorização dos jornalistas negros e suas experiências, então o apelo é para a credibilidade. “Um dos indicadores mais importantes [para credibilidade do conteúdo online] são vozes e perspectivas”, diz Odette Alcazaren-Keeley, diretora do Maynard 200.

► O jornal El País terá uma mulher na direção pela primeira vez desde a criação do veículo, em 1976. É Soledad Gallego-Díaz, de 67 anos, que já tinha sido convidada pro posto em 2012, mas na época queria saber era do gerenciamento da redação.

► A conferência Women in News Media trouxe um punhado de estatísticas sobre a desigualdade entre homens e mulheres nas redações. Com base no encontro, o NiemanLab fez uma lista de práticas para aumentar a representatividade de gênero: a BBC está monitorando o gênero nas reportagens para alcançar 50% de mulheres e homens, o GenderMeme levanta o gênero das fontes em escala, e tem mais um monte de iniciativas por lá… O encontro gerou um livreto com 10 estudos de casos.

► A repórter que publicou e denunciou o próprio caso – entre outros – de assédio do repórter da Casa Branca do New York Times Glenn Thrush foi alvo de uma campanha de difamação até mesmo dentro do jornal, diz a Jazebel.

► Uma ferramenta da Accenture está buscando equilibrar os enviesamentos dos algoritmos. Ela se chama Fairness Tool – ferramenta de justiça. Saiu na Fast Company.

► No blog do objETHOS (Observatório da Ética Jornalística), da UFSC, uma análise dos erros e acertos de uma reportagem sobre a adaptação dos ônibus de Florianópolis a pessoas com deficiência, feita pelo Jornal do Almoço, da NSC TV.

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