Estamos de volta com a Diversa depois de um intervalo amoroso. Eu, Simone, estou voltando de licença maternidade depois da chegada da Maria e trazendo novidades sobre a pesquisa de raça nas redações (que rodamos online no ano passado, 2018) e nossa parceria com redações que estão trabalhando para fazer um jornalismo mais próximo da realidade do país.

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Na pesquisa sobre raça nas redações, mapeamos que menos de 30% delas – dum universo de 64 veículos – têm políticas voltadas para representatividade racial, tendo poucos jornalistas negros – mais da metade tem menos de 3 na equipe.

salário é desigual entre brancos e negros: a maioria dos jornalistas negros ganha até 3 salários mínimos e a dos brancos, justamente acima de 3 salários. E cerca de 30% dos profissionais negros que responderam a pesquisa são freelancers, ou seja, não atuam de forma fixa nas redações.

A pesquisa teve 234 respondentes entre 19 e 60 anos, de 11 estados brasileiros (quase metade são de SP). Quatro em cada 5 trabalham em redações – em 64 veículos, sendo que alguns preferiram não responder – e 1 em cada 5 são freelancers.

É um perfil bem diferente do perfil dos alunos da Escola de Jornalismo da Énois, jovens de 17 a 21 anos que têm renda familiar de até 3 salários mínimos. Quase todos usam a bolsa de R$ 600 mensais para complementar a renda ou ajudar no transporte e na alimentação. No censo da EJ, a raça é dividida em três partes quase iguais de brancos, pretos e pardos, com quase 30% se autodeclarando de cada uma.

Sem diversidade na redação é difícil ter um produto diverso, que registra e questiona a realidade a partir da visão da maioria da população (as pessoas negras são 53% da população do país, segundo o IBGE).

Reduzir o fosso entre a realidade do país e dos jornais está no foco de algumas redações tradicionais. Na RBS, a demanda surgiu da redação, onde em 2017 foram criados grupos que propõem ações e reflexões sobre gênero (Jura), LGBT (Pride) e raça (Afro). A empresa criou um comitê de diversidade com os chefes das áreas de Produto e Operações, Marketing, Comunicação e Gestão de Pessoas; e pôs na mão do RH o foco da estratégia de diversidade. A área, chamada Atração e Diversidade, cuida do recrutamento e seleção para atrair e reter talentos e promover a inclusão dos funcionários.

Na Folha de SP, que criou há cerca de 4 meses uma editoria de diversidade, o gatilho parece ter sido a queda de leitoras do jornal, ou seja, a questão de gênero pautou a discussão. “E o próximo passo mais urgente, na nossa avaliação, era o de diversificar o jornal, seja na titularidade das colunas, dos blogs, das análises, seja nas fontes ouvidas, seja na composição da própria Redação”, diz o diretor de redação Sérgio Dávila.

A editora de diversidade, Paula Cesarino Costa, está coordenando um censo da redação, um guia de fontes de perfis diversificados e diz ter elevado a presença feminina em artigos de opinião – e, de forma tímida, as vozes negras.

Énois está trabalhando em parceria com os dois grupos para desenvolver e implementar metodologias que tenham impacto na diversidade e representatividade, com apoio do Google News Initiative. Vamos ajudar a diagnosticar como está a diversidade das redações e elaborar estratégias para trazer mais representatividade, a partir da criação de um indicador, que depois poderá ser utilizado por outras redações.

Ouvimos mais de uma dezena de pessoas à frente de grupos subrepresentados na imprensa atualmente e catalogamos dezenas de políticas e ações por mais representatividade no jornalismo. No norte estão projetos referência ligados a gênero como o 50:50, da BBC, que organiza a produção para alcançar pelo menos 50% de presença feminina no jornalismo e que tem servido como modelo para redações pelo mundo. E ações simples como a política implementada pela centenária revista The Atlantic, que passou a usar o mesmo critério de contratação para mulheres e homens: o potencial – não a experiência. Com a mudança, elas foram de 17% para 63% dos cargos de liderança em cerca de dois anos, contou o editor-chefe Jeffrey Goldberg, em entrevista ao Nieman Lab.

Como fazer o mesmo para questões de raça? É uma das perguntas para quais buscamos resposta. Na pesquisa conduzida pela Énois no ano passado, há indicações de que tipo de ações as redações estão desenvolvendo: foco em ter maior diversidade entre os colunistas, contextualizar reportagens que tratam de questões sociais a partir de perspectivas raciais e buscar fontes e pautas que melhor reflitam a diversidade racial do país.

Para integrar a equipe, algumas redações fazem ações de conscientização sobre racismo e branquitude, têm comitês e fazem eventos sobre questões raciais. Em outras, há busca de pelo menos um candidato negro em cada entrevista para vagas abertas.

O panorama que estamos fazendo para criar os indicadores de diversidade detalham os pontos de atenção e os caminhos. O primeiro passo é ver raça e negritude como vetor que explica o país e determina quem somos. “Se alguém é discriminado, alguém discrimina. E não há questão desracializada no país”, diz Cinthia Gomes, integrante do Cojira-SP (Comissão dos Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo).

As redações tradicionais precisam pensar com seriedade nisso. Demanda há, a julgar pelo Project 1619, do New York Times, bem explicado em português pela Julia Michaels. A edição especial da revista de domingo do jornal coloca a chegada de escravos, em 1619, como ponto fundador real dos EUA, questionando a história da independência, em 1776. A reconstrução histórica vendeu como água.

Nos EUA, o atual diagnóstico é que muito pouco tem sido feito para avançar em diversidade racial nas redações. “O mesmo foco estratégico que muitas redações colocaram na transformação para as operações digitais têm de ser colocado para a diversidade”, diz LaSharah S. Bunting, diretora de jornalismo da Knight Foundation, que está investindo US$ 1,2 milhão no Maynard Institute for Journalism Education, para ajudar as redações a repensar soluções para a crise de diversidade.

Sem financiamento neste patamar – pelo menos até o fechamento desta newsletter – estamos pesquisando e construindo formas de agir e construir mudanças estruturais nas redações. Já demoramos demais.

NO RADAR

► Guerras do Brasil.doc é uma série documental da Netflix que é exemplo de representação na produção, ouvindo especialistas negros e indígenas para contar sobre como o Brasil é um país formado a partir do assassinato e violência contra negros e indígenas.

► Pra copiar: 14 organizações locais, de 9 estados dos EUA, se juntaram para cobrir mudanças climáticas. Aqui, o compilado de matérias do Inside climate news.

► Um relato didático de como o projeto 50:50, criado pela BBC e usado em várias redações, está orientando a produção jornalística da ABC a retratar as mulheres – principalmente as minorias. Entre as ações, houve a criação de um banco de mil fontes.

► A ProPublica apoiou cerca de 100 jornalistas, em 4 anos, com a formação no Instituto de Dados e com bolsas para congressos ligados à diversidade no jornalismo. Eles compilaram relatos de como os programas contribuíram para mudar os destinos dos profissionais.

► Em tempos de fechamento em massa de jornais locais (a ponto de valer ampla cobertura pelo New York Times), a cidade americana de Longmont está estudando formas de financiar o jornalismo local. Um dos caminhos pode ser juntar o jornalismo com as bibliotecas públicas, ambos serviços públicos e disseminadores de informação

► Diversidade e jornalismo como serviço público tem tudo a ver com a criação de uma cultura de escuta, esmiuçada de um jeito bem didático neste texto do American Press Institute. Entre as premissas estão ouvir e incorporar caminhos apontados por influenciadores das comunidades e críticos das produções.

Esse conteúdo faz parte da Diversa, a newsletter da Énois que investiga e mapeia a diversidade no jornalismo do Brasil e do mundo. Inscreva-se para receber.