Os desertos de informação e a cobertura midiática nas regiões periféricas de Guarulhos e Itaquaquecetuba, na Grande SP


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Esta é a última diversa de 2019, feita pelos repórteres residentes da Agência Énois de Jornalismo – jovens que passaram o ano aprendendo enquanto produziam jornalismo como a Diversa discute.

Eles desenvolveram pautas que os veículos tradicionais não vêm se não tiverem jornalistas das periferias: a falta de médicos na Cidade Tiradentes e as consequências disso na vida das pessoas, o casamento infantil nas periferias e a necessidade de mais apoio aos bolsistas do ProUni. Foram mais de 10 reportagens publicadas na BBC Brasil, The Intercept Brasil, UOL e AzMina.

Escrever para fora da quebrada sobre o que veem no dia a dia deles foi importante. E os fez pensar em como também é necessário cobrir suas regiões desse jeito profundo, embasado em protocolos jornalísticos e comprometido com a sociedade. Daí que foram pesquisar os desertos de informação e a cobertura midiática nas regiões periféricas de Guarulhos e Itaquaquecetuba, na Grande SP. Abaixo, o que descobriram:


Quando a mídia da nossa quebrada não nos representa

Ao digitar no Google o nome de alguma das periferias de São Paulo, a dimensão dada pelo noticiário local impresso e online, quase sempre, é superficial e sensacionalista. Mas já sabemos que a realidade nestes territórios não se resume à violência e falta de infraestrutura, né?

O trabalho de veículos de comunicação como Agência Mural, Capão News, Periferia em Movimento, entre tantos outros, tem colaborado para mudar esta situação na cidade de São Paulo, mostrando as várias perspectivas das periferias paulistanas e do ponto de vista de quem mora e convive por lá. Promovem coberturas sobre o direito à moradia, trabalho e renda, a resistência e a diversidade locais, fiscalizam os serviços, enfim, fazem um trabalho fundamental para a garantia de direitos e a imagem do que são as periferias e seus moradores.

É algo que certamente não acontece com cerca de 38 milhões de brasileiros ainda vivem sem cobertura jornalística dos seus bairros e regiões, segundo a versão atualizada do Atlas da Notícia. Mas há ainda um limbo entre receber informação que ajuda na defesa dos direitos ou uma visão de fora do território, sem informar e fiscalizar o que acontece no bairro e as políticas públicas discutidas na região. A diversa sobre jornalismo local e eleições, em 2018, tratou disso com mais profundidade e o Atlas aponta essa preocupação quando trata de quase desertos, locais que têm no máximo 2 veículos.

Fomos repórteres residentes da Agência Énois em 2019 e circulamos pela cidade conhecendo diversas iniciativas de comunicação enquanto produzimos nossas pautas. E fomos percebendo que a sensação de não saber e estarmos desconectados das quebradas em que nascemos e crescemos poderia ter a ver com esse limbo informativo. Resolvemos então pesquisar para ver como o noticiário impresso e online retratam nossos bairros: o Jardim Fortaleza, em Guarulhos, e o Jardim Odete, em Itaquaquecetuba.

Muita publicidade para pouco jornalismo

O Jardim Fortaleza fica a 42 km de distância do centro da capital paulista, mas lendo os jornais parece pertinho, de tanta informação sobre o centro. Pode ter a ver com o fato de os jornais mais antigos, Guarulhos Hoje e Folha Metropolitana, serem dos dois maiores grupos de jornais da capital Folha e Estado. O mesmo vale para os sites que têm nome, mas não informação local, Click Guarulhos e Guarulhos Web.

Nos impressos, a maioria distribuída de forma gratuita, as capas podem ser confundidas com as de encartes de anúncios de comércios, com publicidade ocupando mais da metade da página

A desapropriação habitacional é assunto recorrente, mas abordado de forma pontual, sem tratar de questões estruturais. Uma matéria do Guarulhos Hoje sobre desapropriação no Jardim Carambá, sintetiza o problema: não diz o motivo da retirada dos moradores nem vai além da fala de uma delas, não traz documentação nem contextualização: houve aviso aos moradores? quanto tempo deram para saírem das suas moradias?

É a tônica geral das notícias. São feitas a partir de informações sem contexto e sem considerar a história local, aí fica difícil entender a ligação entre os casos. E, só com base nas notícias, não dá para refletir ou questionar a política de habitação executada no território. O jornalismo perde, assim, uma de suas funções sociais mais clássicas: a de fornecer informações para que a população possa questionar o governo.

Itaquá tem jornais voltados a divulgação de serviços e anúncios da região do Alto Tietê, um conjunto de dez cidades: ou seja, bem distantes da vida dos moradores. Os mais antigos são O Diário de Mogi, com 60 anos, em Mogi das Cruzes, e O Diário de Suzano, com 58 anos.

Há notícias sobre Itaquá circulando em páginas no Facebook que podem confundir com jornalismo, mas trazem informações não checadas, sem indicação de fonte e uma abordagem opinativa. Elas fortalecem o discurso de ódio, com bombardeio de informações descontextualizadas sobre crimes. Em uma publicação recente na página Itaquá 24h, por exemplo, a ideia de que “bandido bom é bandido morto” ganha ressonância.

A página também trabalha como veículo de propaganda de Eduardo Boigues pré-candidato do PP à prefeitura da cidade, mas se considera um veículo de comunicação.

Você conhece um jornalista?

A distância entre os jornalistas e os territórios também contribui para uma cobertura superficial e estereotipada. Dos 18 jornalistas que trabalham na redação no O’Diário de Mogi, por exemplo, 70% moram em Mogi das Cruzes, a 30 km de distância de Itaquá, segundo os dados do portal. A sensação de distância é ainda maior porque os repórteres não pesquisam pautas na rua. Sem transitar pelos territórios – a não ser que precisem checar algum B.O. em uma delegacia –, como é possível pescar pautas além da violência e das agendas institucionais?

O mesmo acontece em Guarulhos, onde as equipes do Guarulhos Hoje e da Folha Metropolitana trabalham de dentro das redações e, como consequência, trazem como notícia a reprodução dos anúncios da prefeitura, sem contexto nem questionamento.

Na contramão desses jornais locais, há iniciativas que buscam olhar para o território a partir dali. Têm jornalistas nascidos e/ou criados nas regiões e entendem o jornalismo como uma ferramenta que torna o leitor um cidadão mais crítico e exigente.

No distrito dos Pimentas, periferia de Guarulhos, o Projeto ComCom de Comunicação Comunitária surgiu em 2013 porque os moradores entenderam que a informação e os meios de comunicação eram um jeito potente de entender a formação do território. Desde então, o curso semestral de comunicação em rádio, TV, internet e jornal impresso formou mais de 700 alunos entre 12 e 71 anos. Um dele é Nelson Simplicio da Silva, 26, estudante de Educomunicação na Universidade de São Paulo (USP), que hoje é coordenador do projeto.

A distância da produção jornalística é tão grande que, quando acontece, muitas vezes traz desconfiança. Os alunos eram olhados com cara feia pelos moradores ao sair para fazer as fotos do jornal impresso pelas ruas do bairro. A comunidade achava que eram funcionários fotografando suas casas para uma possível desapropriação. Com o tempo, entenderam que o que faziam era produzir informações úteis para o dia a dia dali.

O jornalismo de quebrada desloca a narrativa e a publicação do centro para as margens da cidade, segundo o conceito criado pelo Periferia em Movimento. Usando modelos de comunicação popular, alternativa, comunitária ou local o jornalismo de quebrada foca a formação do leitor e a militância pela garantia dos direitos fundamentais, como descrito na pesquisa “Educomunicação e diálogo de saberes nas periferias de São Paulo e Medellín“, da USP.

Sem iniciativas que retratem e fiscalizem Guarulhos e Itaquá por um viés local, também nós nos informamos por meio dos veículos que mostramos aqui. Mas não só. O jeito é balancear com os ingredientes que temos a nossa dieta de informação.

Acompanhamos várias páginas de Facebook da cidade e tentamos cruzar com o que achamos em buscas do Google, veículos tradicionais e locais. Embora Guarulhos e Itaquá sejam cidades grandes, de 1 milhão e de 352 mil habitantes, o boca a boca ainda é um meio frequente e eficiente de informação local, só que de um jeito mais rápido e tecnológico. Entre se informar de um jeito pontual e enviesado ou se manter conectado a quem conhecemos dali, pesa mais a rede de informação próxima, ainda que informal. Acompanhamos os grupos de WhatsApp da família e amigos, que sempre pipocam com notícias de algo sobre a cidade. E aí, é trabalho nosso checar e espalhar ou interromper a corrente de desinformação.

NO RADAR

► Um guia importante sobre como cobrir arte nativa, indígena ou popular. É arte.

► A National Geographic fez uma edição que pretende retratar um século de mudanças para as mulheres. O resultado é lindo e um retrato do machismo estrutural. A Quartz analisou a edição.

► O Financial Times passou a ser liderado por um mulher pela primeira vez em mais de 130 anos de história. Não é um despertar, mas o reconhecimento do trabalho exepcional de Roula Khalaf, há 24 anos no jornal, disse o editor que será substituído por ela.

► O tema da redação do Enem foi a democratização do acesso às salas de cinema no Brasil, só que mais de um terço dos candidatos inscritos no Enem são de localidades sem salas de cinema, mostrou reportagem do OGlobo.

► A Agência Mural solicitou dados dos planos de metas de todas as 39 cidades da Grande São Paulo: 17 ignoraram os pedidos via Lei de Acesso à Informação e a maioria que respondeu indicou a consulta a projetos de lei como os planos plurianuais, sem dar mais indicações.

► Um desabafo orientador sobre como as empresas que investem em diversidade têm de investir em incluir quem entra: não fale do meu cabelo, sintetiza esse lugar de não pertencimento, não valorização da diferença e da diversidade como algo exótico e desrespeitoso.

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