A seleção para os trainees da Folha e do Estadão, os maiores jornais do país, não pergunta sobre raça, religião e nem abre os gêneros para além de homem e mulher. As turmas são formadas majoritariamente por brancos de classe média-alta, vindos de faculdades públicas e muitos com vivência no exterior.

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Perfil e experiências moldam o mundo que vemos. Então é claro que o fato de os negros serem 5% dos jornalistas enquanto são 52% da população, é relevante. Ter pessoas de diferentes raças, culturas, crenças, orientação sexual e renda permite ver a realidade por perspectivas diversas, de forma mais complexa, como apontamos no Manual de Diversidade no Jornalismo. Isso é fundamental para fazer jornalismo mais próximo da realidade e que ajude a construir diálogo.

A turma da Escola de Jornalismo da Énois contrasta com as redações do centro. A seleção se preocupa em alcançar diversidade de habilidades e representações sociais. Ou seja, se o grupo se complementa entre diferentes regiões da cidade, gêneros, idades, religiões e técnicas específicas.

Turma de 2018 da Escola de Jornalismo

Neste ano, foram 216 inscritos para 10 vagas. 75% foram meninas (contra 50% no ano anterior) e três pessoas eram não binárias. Geralmente deixamos cotas para as meninas, mas em 2018 elas se impuseram. Tivemos a mesma proporção de brancos e pretos (35%), um pouco menos de pardos (27%) e dois indígenas.

Pela primeira vez também perguntamos a religião dos inscritos, porque entendemos que ela influencia as visões de mundo e portanto os enfoques das pautas e o jornalismo que é feito na EJ. Sabemos que evangélicos foram 15% dos inscritos, assim como os católicos (dos selecionados, nenhum se declarou católico).

NO RADAR

  • Traduzimos para o português um guia de carreira para jornalistas não-brancos, publicado no site do Poynter (em inglês). Estar fora do padrão é um ativo de que a sociedade e o mercado jornalístico precisam – algo que a Tatiana Dias, coordenadora da EJ, falou na formatura do ano passado. O guia orienta a escolher trabalhos que têm a ver com a carreira e a contra-entrevistar o empregador sobre a valorização da diversidade e de carreira. Nada de pegar o que aparece e agradecer.
  • O Google BrandLab fez um dossiê sobre diversidade por conta do aumento das buscas pelo tema no país. Cresceu 30% no ano passado e dobrou em cinco anos. Racismo, feminismo e LGBTQI+ são os maiores alvos, seguidos de diversidade étnica, cultural, sexual e empoderamento. O dossiê diz que 54% dos jovens dariam preferência a marcas focadas em direitos, igualdade e diversidade.
  • Pesquisa da Gênero e Número em parceria com a Abraji mostra que 86,4% das jornalistas já passaram por pelo menos uma situação de discriminação de gênero e 70,2% já presenciaram ou tomaram conhecimento de uma colega sendo assediada no ambiente de trabalho.
  • O cinema do homem branco: Nexo faz a visualização de dados de gênero e raça dos filmes brasileiros de 2016 e a conclusão é essa.

Esse conteúdo faz parte da Diversa, a newsletter da Énois que investiga e mapeia a diversidade no jornalismo do Brasil e do mundo. Inscreva-se para receber.