Uma reunião de pauta como eu não via há anos — ou quando a reunião de pauta é também com o leitor
Por: Simone Cunha

Foram os repórteres xóvens da Énois que pediram uma reunião de pauta semanal pra pegarem o microfone e discutirem as ideias de reportagens deles, um dar pitaco na ideia do outro e trazer as dúvidas do processo de apuração.

Os meninos tinham ideias como ouvir os jovens evangélicos sobre a maioridade penal, conhecer jovens que têm seus negócios e como se meteram numa dessas, entender a relação deles com privacidade e os nudes, falar de sexo seguro e saber se na maçonaria tem gente jovem.

Éramos uns 10 jovens e 3 jornalistas — galera formada que participa como voluntária ensinando a molecada na prática da apuração. Todo mundo presente e afim de construir e refletir sobre o jornalismo — e o mundo.

Às 6 da tarde, fim da reunião, dava pra ver que tinha acontecido uma coisa muito grande e bonita ali. E aí vem a avaliação dos profissionais: foi a melhor reunião de pauta em anos.

“Ouvir as ideias um do outro e parar pra discutir e criar um pauta mais consistente a partir da troca é algo que não rola mais em redação”, disse o repórter Daniel Lisboa.

Por quê?
Porque há espaço pro repórter pensar e dizer sobre o que quer falar. E também porque a Énois constrói o jornalismo como escuta dos leitores, já que a rede jovem é a produtora — e deve ser cada vez mais distribuidora — da informação.

“Quanto mais engajada sua comunidade é, mais você vai ter olhares, enfoques que não talvez tivesse na reportagem (sem a participação dela)”, diz a coordenadora do mestrado em jornalismo social da CUNY, Carrie Brown, em uma entrevista ao First Draft sobre a importância da comunidade pra sustentabilidade do jornalismo.

É como diz o mantra da Énois: a gente faz junto com os jovens, nossos leitores e produtores — não pra eles nem por eles.

A ideia vem de lá e discutimos como avançar nas questões e tratá-las de formas e com informação novas.

Não damos respostas: a produção é deles, num processo de aprendizado, o que pressupõe construir junto. Cada um traz um pouco de si e coloca na roda à medida que ouve. A ação (as pautas, que vão desembocar nas reportagens) surge desse encontro.

Fugimos do que já sabemos: se é pra repetir modelos, o que já está feito, poderíamos fazer nós, galera já formada e rodada nas redações. A Énois é uma escola, um lugar pra repensar, construir o jornalismo como uma ferramenta pra entender o mundo.

Não exigimos isenção, ao contrário: perguntamos às minas e aos minos de onde vem o interesse deles no assunto, onde ele se cruza com a vida deles.

Quando se observa olhando e fazendo, a gente reflete, se esclarece, se responsabiliza pelo que faz e faz melhor.

Pra mim também foi a melhor reunião de pauta em anos: teve surpresa (o que desperta o interesse do outro), questionamento (pra cutucar uma construção melhor) e sintonia (o que todo mundo ali queria era aprender, compreender e fazer o melhor que pudesse).

É esse processo que gaz a gente conseguir fazer matérias que são a cara deles, ter uma rede próxima e engajada e testar como essa forma de fazer jornalismo reflete em alcance.

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