Diversa

12 dicas para captar recursos para o seu projeto de jornalismo 

21 de Outubro de 2020

Oi, tudo bem? Espero que você e os seus estejam bem, com saúde e segurando as pontas! Meu nome é Kayam, eu sou o residente de Captação de Recursos aqui da Énois e parte do meu trabalho é exatamente esse: tentar segurar as pontas da Énois nesse ano pandêmico e tão difícil para o jornalismo, a cultura, para a educação, para a economia e para a saúde, principalmente dentro das quebradas.

Um dos grandes valores que a Énois cultiva nessa jornada de 10 anos é a diversidade. A gente entende que é por meio dela que mais colaboramos pra fortalecer o jornalismo brasileiro e a democracia. Com uma equipe diversa, que produz e distribui conteúdo diverso, a gente incentiva o acesso à informação, aos espaços e aos direitos das pessoas. E, para que isso aconteça, essa estrutura precisa se financiar de alguma forma. Por isso, hoje eu quero trazer pra você algumas dicas para diversificar a sua forma de captar grana e, com isso, garantir que o seu projeto aconteça ♥

“Como financiar o jornalismo” é uma das maiores discussões na área atualmente. E é também um problema, principalmente para os veículos periféricos, que não contam com muito patrocínio e que cobrem os seus territórios. Entre 2005 e 2018, o país perdeu mais de 331 veículos jornalísticos, que encerraram suas atividades por não conseguir financiar as operações. Esse dado, apontado pela pesquisa Atlas da Notícia, agrava ainda mais a presença dos desertos de notícia, territórios que não dispõem de veículos jornalísticos ou tem no máximo até dois veículos cobrindo e acompanhando a realidade local. Para se ter uma ideia, oito em cada dez dos 5.570 municípios do Brasil se enquadra nesse cenário.

Diante desse quadro, é essencial pensar a captação de recursos como uma área estratégica para o seu veículo. Confira aqui 12 dicas para fazer isso!

1. Seu projeto precisa sair da informalidade

Muitas organizações, na ansiedade de começar a produzir conteúdo para suas comunidades e ver o impacto do acesso à informação no seu próprio território, começam a conduzir as produções de forma desregulada e sem formalização. Compõem coletivos, grupos online ou equipes informais que têm toda energia para pôr a mão na massa e saem produzindo, mas sem ter as formalizações administrativas essenciais em dia. Isso complica muito porque, sem um CNPJ, essas organizações não conseguem captar grana de forma segura, não conseguem prestar conta e ainda encontram dificuldades em encontrar empresas e entidades que topem fechar parcerias e incentivos.

2. Torne o seu projeto uma história para se contar

É muito importante começar a ilustrar a ideia do projeto com uma apresentação. Ela precisa ser breve, simples, mas comunicar tudo o que você pensou. Ela vai ser uma ferramenta importante para compartilhar tudo aquilo que borbulhou na sua cabeça. Com a ideia em mente, essa apresentação mais formal vai para um dos seus futuros patrocinadores! Lembre de listar tópicos que precisam constar nos slides: objetivo, justificativa, histórico da organização ou da equipe; cronograma e etapas do desenvolvimento do projeto; o orçamento detalhado do projeto; quais serão as entregas que esse projeto trará para o público; e quais contrapartidas os incentivadores terão ao investir no seu projeto.

3. Toque projetos que façam sentido (para você, para o seu território, para a sua organização)

Quando você desenha um projeto pensando na sua comunidade, onde você conhece a história, as pessoas, as questões e os problemas, fica muito mais fácil pensar no propósito que ele tem, já que você tem lugar de fala sobre a sua região e as necessidades dela. Aí você consegue já pensar no impacto que vai causar e no sucesso que ele vai conseguir quando acontecer. Os objetivos, as justificativas, as entregas e até o orçamento (itens essenciais na sua apresentação) vão soar naturais para você e tornarão a venda do seu projeto muito mais fácil. Aliás, ter o projeto na ponta da língua é essencial!

4. Entenda o que é o seu projeto, quanto ele custa e porque faz sentido que alguém invista nele

A captação de recursos é antes de tudo um processo de venda. O seu projeto é lindo, beneficia as pessoas, tem impacto, a apresentação está chique, mas ele também precisa fazer sentido para quem investe nele. E não só fazer sentido, esse projeto precisa ser atraente para as empresas que querem investir nele. Mapeie pessoas, empresas e organizações que tenham o interesse de investir em iniciativas que tenham a mesma linha de atuação que o seu projeto.

5. Mapeie leis de financiamento público

Lembra do nosso primeiro item, sobre a formalização da sua organização? Pois é! Ele é essencial aqui. É com ela que muito mais gente vai poder investir no seu projeto. Depois de formalizado e com CNPJ em mãos, você pode inscrever seu projeto em leis de incentivos à cultura e ao esporte, como o Proac (que cobre o Estado de São Paulo), o Promac (que cobre o município de São Paulo) e o LPIE (que financia iniciativas esportivas na capital paulista). Essas leis direcionam a grana dos impostos das empresas (ou das pessoas) para a cultura e para o esporte. Dessa forma os incentivadores recebem a isenção de parte do imposto e, em contrapartida, o Estado garante um mínimo fomento à cultura e ao esporte. As leis de incentivo seguem a linha de repasse do desenho público-administrativo. Então temos leis municipais, estaduais e federais. Por isso, vale a pena consultar, nos portais das secretarias de cultura e esporte da sua cidade, quais são as leis de incentivo do seu território para fazer a inscrição dos seus projetos de acordo com a legislação local. Ah! Vale comentar que a prestação de contas do seu projeto, independente da lei de incentivo, precisa ser impecável: a transparência ajuda a criar uma boa relação com os investidores e mantém as parcerias conquistadas!

6. Vale mapear também os editais públicos e privados

Diferentes das leis de incentivo, os editais não tem obrigatoriamente uma recorrência anual. Isso significa que nem sempre é uma grana que vai pingar no seu orçamento. Mas, ainda assim, são boas oportunidades para a captação: eles garantem grana para tocar projetos específicos, de acordo com o previsto nas regras do edital. O Vai, aqui de São Paulo, por exemplo, conta com três versões: o Vai 1, Vai 2 e Vai TEC. É o mesmo edital, mas contemplando projetos com propostas e impactos de diferentes coberturas. Projetos menores acabam recebendo proporcionalmente menos grana, enquanto os maiores contam com mais recursos. Agora, quando a gente fala de edital nacional, um bom exemplo é o Rumos, do Itaú Cultural. Ele contempla temáticas muito diversas e permite a inscrição de projetos e organizações que têm diferentes frentes de atuação. O mais importante é montar um calendário dos editais que contemplam seu projeto para conseguir acompanhar os prazos de inscrição, o envio das documentações e as prestações de contas.

7. O projeto faz sentido para o patrocinador, mas ele ainda é seu!

Às vezes as empresas gostam tanto do impacto do seu projeto que sentem que o impacto é causado por elas. O projeto é seu. O corre pra conseguir financiamento foi seu. Não deixe ninguém se apropriar do seu projeto, nem conduzir a sua forma de produzir e de direcionar os impactos. Para fortalecer sua imagem nos territórios e usar os projetos como marketing, as empresas gostam de tomar pra si os feitos de projetos que incentivaram. Encontre parceiros que façam sentido para você e que respeitem o seu lugar de fala sobre a sua frente de atuação, seu território e sua experiência dentro do contexto do seu projeto.

8. Traga sua rede de pessoas para investir no seu projeto

Compartilhe sua ideia com as pessoas que te conhecem e sabem da importância da sua iniciativa. Desde pessoas do seu bairro, com vaquinhas online para atingir metas da captação – dá pra usar o Catarse, a Vakinha, o Benfeitoria e etc. Além de mapear e ir atrás de uma rede de negócios locais, como a padaria, o sacolão, o açougue, a loja de capinhas de celular, parceiros que possam fortalecer com pequenos incentivos ou prestações de serviço.

9. Busque ajuda para captar

Você sabia que em muitos casos, no processo de captação de recursos, existem empresas e pessoas que intermediam a relação entre projeto a ser captado e empresa investidora? Esses intermediários são muito pouco diversos. Normalmente, são pessoas brancas que já atuaram nas áreas corporativas de responsabilidade social e entenderam, por meio da ótica das empresas, como funciona a captação de recursos. Ainda assim, eles são uma ótima alternativa para explicar melhor seu projeto e tentar vendê-lo para as empresas patrocinadoras. Algumas empresas que fazem essa intermediação são a Lynx, a Parlare, a Arte e Ensaio, a 3Apitos e etc. Pesquise sobre elas, entre em contato com seu projeto pronto em mãos e comece a criar a sua rede de captadores parceiros. Isso ajuda muito a incluir os seus projetos nas pautas de investimento de outras empresas e traz mais visibilidade para o seu propósito, impacto e território.

10. Corra atrás de uma resposta, mesmo que negativa

A captação é um trabalho que não tem fim enquanto o projeto acaba. A gente pensa projetos, monta apresentação, marca reunião, toma café com os migues das empresas, faz e acontece e, às vezes, come as unhas de ansiedade querendo vender o projeto. Acontece que isso nem sempre acontece. Mas, o nosso papel é levar esse processo até o final, mesmo que ele desague num longo e formal email dizendo que o investimento não vai rolar. É normal… Vai acontecer… Faz parte do processo… Às vezes desanima 🙁 Mas também vai liberar a gente para ir atrás de outros patrocinadores. Lembre-se: a captação é uma venda.

11. A burocracia é do tamanho que você dá pra ela e é feita para te parar e te fazer desistir

Você inscreve o projeto, aprova ele, consegue um investidor, corre com a assinatura dos contratos e… A burocracia te desacelera. Não desanime. Vá em frente. Busque ajuda com a sua rede de amigues contadores, advogados, comunicadores e artistas. Encontre brechas em que caiba o seu projeto! Insista até a grana cair na conta.

12. Preste contas. O mundo precisa conhecer o seu trabalho.

A gente sempre pensa que essa é a parte mais difícil… a mais chatinha de lidar. Mas, a verdade é que depois que o seu projeto tá na rua, essa é a fase onde você pode mostrar para os seus patrocinadores como valeu a pena investir no seu trabalho e na sua organização. Monte um relatório financeiro que traga transparência e que seja de fácil compreensão, mas pense também num relatório de atividades, onde você descreve com qualidade tudo que fez durante o seu projeto, quais foram os impactos reais, quantas histórias de impacto positivo ele gerou, quantas pessoas ele empregou! Mostre tudo o que o seu projeto trouxe para o território e para a organização. Capriche no visual dos relatórios e veja a confiança dos seus patrocinadores aumentar – e eles retornarem nas próximas oportunidades como parceiros em novos projetos. Mas, só por segurança, registre os contatos e marque na sua agenda quando você provavelmente vai precisar acionar novamente seu parceiros para vender novos projetos, apresentar outras ideias e iniciativas! O legal é sempre que tiver um evento ou uma atividade rolando na sua organização, você convidar os parceiros. É como diz o ditado: só é lembrado quem é visto!

Boa sorte na captação do seu projeto ♥

EJ PELO MUNDO

Camila da Silva é repórter e estudante prounista de jornalismo no Mackenzie. Foi com 17 anos que começou os corres com jornalismo, em 2018, com a Escola de Jornalismo da Énois e depois com os trabalhos na residência da Agência de Jornalismo Énois, até o ano passado.

Em 2020, com a visão focada para reportar como a quebrada está vivendo com a pandemia, produziu reportagens para Uol, The Intercept, Azmina, entre outros portais. As reportagens deram certo e agora, dos freelas às redações, integra a equipe da CartaCapital.

A parceria com a Énois também continua! Camila faz parte da equipe da quarta edição do Prato Firmeza, que vamos lançar em breve. Leia as reportagens dela em bit.ly/portfoliocamiladasilva

NO RADAR

► Para você que quer aprender mais sobre como melhorar a captação de recursos do seu projeto social, fica a dica! A Fundraising Academy é uma plataforma de cursos e formações gratuitas sobre o trampo da captação, em inglês. Eles realizam pelo menos uma vez por mês encontros formativos online para falar sobre gestão institucional, financeira, empreendedorismo e captação de recursos.

► Você que já tem um projeto e precisa de oportunidades de venda, uma boa dica é a plataforma Prosas. Lá, você cria o seu perfil, disponibiliza ele e os seus projetos para todas as empresas parceiras da plataforma e consegue acompanhar sempre que sai um novo edital, seja público ou privado (inclusive rola uma newsletter de atualização).

► Como a gente comentou nessa news, a prestação de contas é essencial para criar construir a confiança dos patrocinadores no seu projeto e na sua organização. Veja o relatório de atividades da Énois de 2019 e se inspire! O que importa é deixar bem claro pro mundo tudo o que você e o seu projeto construíram.

 

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