Diversa

Como criar uma política de auxílio emergencial para sua redação?

14 de Abril de 2021

Desenvolvemos a nossa e queremos te mostrar como foi

o Brasil e o jornalismo pandêmicos precisam falar sobre grana

 

Amanda Rahra
Diretora Institucional

Oi, aqui quem fala é a Amanda. 

E essa é a minha primeira Diversa. 

Fiquei com um friozinho na barriga durante dias antes de escrever esse texto sobre como a gente pode usar dinheiro para garantir diversidade no jornalismo. Toda hora me pegava postergando, fazendo outras coisas, respondendo às demandas urgentes e desconcentrada demais pra me concentrar num texto. 

Até que na última semana, depois de muito contar essa história junto com a Jessica Mota, gerente de RH, e a Bruna Gonçalves, coordenadora financeira, a ideia virou fato: fizemos o pagamento do auxílio emergencial para cada uma das 15 pessoas da equipe da Énois. E diferente do que era proposto pelo edital que tornou isso possível, a gente criou uma maneira (que chamamos de metodologia) desse recurso ir ao encontro das necessidades individuais das pessoas que compõem esse coletivo. Foi mais uma forma que a gente encontrou por aqui para fortalecer a diversidade a partir de uma distribuição desigual dos recursos. 

Explico. 

Mas antes, para dar contexto, acho que vale dizer que pagar as pessoas que trabalham com a gente sempre foi uma premissa na Énois. Pode parecer óbvio, mas a gente que é jornalista bem sabe que não é.

Falar de grana é preciso (sempre)

Desde a primeira vez em que fizemos uma oficina de jornalismo voluntária na Casa do Zezinho, nosso impulso foi correr atrás da grana para que pudéssemos viver desse trabalho e para que mais gente – sem os nossos privilégios – pudesse fazer o mesmo. Porque fazer jornalismo dá trabalho. Leva tempo. Expõe as pessoas. E remunerar também é cuidar – e contribuir para que pessoas diferentes possam exercer jornalismo juntas e, assim, fortalecer a democracia.

Foi numa reunião de equipe que a gente decidiu abrir o salário de todas as pessoas que trabalham na Énois – sim, aqui todas sabem o salário de todas e isso ajuda a falar mais abertamente sobre o tema dinheiro. Era 2017 e a gente tinha  um homem branco sem dependentes e uma mulher branca com duas filhas ocupando a mesma função na Coordenação da Escola de Jornalismo. 

Conversando, a gente entendeu a importância de falar sobre finanças pessoais e sobre o financiamento dos nossos projetos. Também entendemos o quanto era difícil fazer isso e que, apesar de terem a mesma dedicação, a vida da Tati, com duas filhas, custava mais do que a vida do Vicente – assim, de largada, sem falar de patriarcado, racismo, desigualdades e interseccionalidades. 

Para mim aquele dia ficou na memória como o momento em que me dei conta de que ela precisava ganhar mais do que ele pra fazer a mesma coisa. E depois disso, essa equalização salarial a partir das (inúmeras) diferenças, num país tão dramaticamente desigual, ficou martelando na mente… até que veio a pandemia e com ela a emergência de cuidar e de agir contra desigualdades sociais, econômicas, raciais e de gênero. 

Assim, em 2020, diante da pandemia, entendendo a vulnerabilidade social trazida pelo contexto, em especial na nossa equipe, como falta de um lugar tranquilo e confortável para trabalhar em casa (muitas vezes falta de mesa e cadeira mesmo), dificuldade no acesso à Internet, complexidade para lidar com a educação das crianças fora da escola e muita instabilidade emocional por conta da pandemia, a gente foi atrás de dinheiro para transformar em fundo emergencial para a equipe.  

Nesse momento em que você está lendo esse texto, a Caixa Econômica Federal começou a pagar o segundo ciclo do benefício, que teve início em 2020 com o agravamento da pandemia, e é esperado por mais de 40 milhões de trabalhadores informais. O benefício médio será de R$ 250 com duas exceções: mulheres chefes de família receberão R$ 375, e as famílias unipessoais receberão R$ 150. 

A partir disso, surgiu uma metodologia de organização e distribuição de auxílio emergencial pautada na diversidade. 

Como bem descreveu a Alice de Souza, nossa coordenadora de sistematização, os objetivos desse auxílio emergencial são: 

  1. Garantir segurança financeira para a equipe em momentos de crise social, econômica e sanitária.
  2. Dar autonomia de cuidado para as pessoas na definição de como usar o auxílio, de acordo com suas prioridades. 
  3. Estabelecer condições de amparo para as pessoas, considerando a diversidade de perfis e necessidades.

Na prática é o seguinte:  

A gente se inscreveu num edital de verba emergencial da Fundação Cargill, pensando em gastar o dinheiro nas seguintes rubricas: apoio psicológico, estrutura de internet individual, formação em equilíbrio emocional, formação de equipe e computadores. 

Acontece que, depois de ganharmos o edital, acabamos compreendendo que o auxílio emergencial para a equipe deveria estar mais em sintonia com as necessidades pessoais. 

Por isso, fizemos um processo de escuta com a equipe (por meio de questionário online e escuta ativa), uma discussão coletiva com todo mundo e, por fim, decidimos criar um índice que nos revelasse um valor coerente para cada integrante da equipe receber. 

Nossa ideia foi baseada em dois critérios: 

  1. Quem ganha os menores salários da equipe deve ter maior acesso ao fundo emergencial e quem ganha mais deve pontuar menos. Na Énois, temos a variação de cinco faixas salariais. Quem ganha mais, recebe 1 ponto, quem ganha menos, recebe 5 pontos, os salários intermediários recebem, de acordo com suas gradações, 2, 3 e 4 pontos.
  2. As pessoas que têm dependentes precisam de mais recursos para sustentar suas famílias, enquanto as que não possuem dependentes, menos. Cada dependente representa 1 ponto.

Após definir as pontuações de cada pessoa, empregamos uma fórmula matemática (que você confere na nossa Caixa de Ferramentas) e chegamos em valores diferentes para cada uma (entre R$ 1.250,00 e R$ 4.375,00). Também reservamos 20% dos recursos para gastos institucionais de cuidado coletivo: manutenção e aquisição de equipamentos, formações de equipe, ações de cuidado e outros materiais de trabalho. 

E como fica a prestação de contas? 

Como prestar contas de tudo isso que a gente não tinha prometido no projeto? Marcamos uma reunião com as pessoas que cuidam da prestação de contas da Fundação Cargill e explicamos tin tin por tin tin tudo isso que contei pra vocês neste relato. 

E fizemos a seguinte proposta: como mapeamos quatro grandes áreas para os gastos com esse dinheiro emergencial, cada pessoa da equipe vai receber os valores combinados e apresentar notas fiscais/recibos referentes ao valor recebido para o financiamento de: 

1) Apoio psicológico 

2) Estrutura de Internet individual

3) Formação e cursos (educação)

4) Alimentação (que não estava no nosso orçamento inicial, mas que apareceu nas nossas escutas) 

Essa é a primeira prestação de contas de muitas das pessoas da equipe. Então propus que a Bruna Gonçalves e a Natália Barbosa, que já estudou na Énois e hoje cuida das nossas finanças na Torres Contabilidade, preparassem duas oficinas de finanças pessoais e prestação de contas, que vão acontecer agora em abril, quando os auxílios foram pagos. 

Como legado dessa emergência toda, ficou para nossa estrutura uma política de cuidado com as pessoas: a partir de agora todas as nossas propostas de projeto terão uma rubrica de 2% do valor total para um fundo de RH. Assim, todos os anos teremos essa graninha extra para auxiliar cada uma de nós a cobrir suas necessidades cotidianas. Mesmo quando a pandemia terminar e, com ela, a necessidade urgente de auxílio, a gente vai seguir com essa política para garantir a nossa diversidade por aqui. 

O passo a passo você confere na Caixa de Ferramentas. Adianto e também já convido você a colar no próximo Redação Aberta. Vamos receber Kátia Brasil, da Amazônia Real, e Cíntia Gomes, da Agência Mural, para falar de estratégias de auxílio e segurança financeira para a equipe de jornalistas durante a pandemia. Vai ser dia 4 de maio, às 10h (vamos divulgar as inscrições em breve). 

Se você quiser conversar sobre o desejo de manter e cuidar de uma equipe diversa, escreve pra mim no amanda@enoisconteudo.com.br 😉 

ÉNOIS PELO MUNDO

> Glória Maria, produtora das formações aqui da Énois, escreveu para o Ecoa sobre a história do jovem Gabriel Finamore, profissional de relações públicas e morador de Paraisópolis, que decidiu se organizar para ajudar outras pessoas e devolver para sua comunidade o conhecimento que adquiriu na faculdade PUC-Campinas, terminada em 2019 como prounista. Ele juntou amigos para arrecadar doações e hoje ajuda 1.300 famílias.

> Gabriella Mesquita, analista de distribuição, participou da 7a edição do In-Comunicações, evento de palestras e workshops da Universidade Federal do Sergipe. Ela falou sobre rotina jornalística em tempos de pandemia, ao lado de Pedro Figueiredo e Ana Paula Correia.

> Alice de Souza e Jessica Mota também falaram para jovens estudantes de jornalismo da Universidade Federal do Tocantins. Além de apresentar a Énois, as duas apontaram caminhos e tendências para atuações no campo jornalístico que vão além da reportagem, como captação de recursos e edição de audiências.

TRANSPARÊNCIA E IMPACTO

> O último Redação Aberta tratou do mesmo tema que apresentamos na Conferência Latino-americana sobre Diversidade no Jornalismo: como medir as ações de diversidade na sua redação. A diferença é que, com mais tempo, nossa gerente de jornalismo, Jamile Santana, pôde se aprofundar mais sobre como realizar as medições e os jornalistas Érico Firmo, do jornal O Povo, e Jordânia Andrade, do portal BHAZ, puderam compartilhar as dimensões sensíveis que os dados não mostram sobre as mudanças que observaram nas experiências das suas redações. Vale muito a pena assistir e salvar nos favoritos 😉

> Nosso projeto Cultura Jovem de Cidade (Pronac 180293) foi finalmente publicado no Diário Oficial da União! Isso quer dizer que podemos seguir captando os R$ 93.824,21 que faltam para fecharmos o valor total. Você pode conhecer mais sobre o projeto e contribuir como pessoa física por meio da nossa parceria com a Incentiv. Ou indicar empresas que fazem investimento via Lei Federal de Incentivo à Cultura para o ivan@enoisconteudo.com.br

> Começou ontem (13/04) a última etapa da formação Jornalismo e Território, direcionada para comunicadores e jornalistas das periferias e favelas do Sul e Sudeste do país (com exceção de moradores das capitais de SP e RJ). Foram 83 pessoas inscritas para participar das formações e 18 pessoas que se inscreveram para atuarem como editores ao longo da formação. A Énois dá as boas-vindas pra essa turma! 

> Também queremos dar as boas-vindas e agradecer especialmente a nosso novo assinante na Benfeitoria, Harry Backlund, co-fundador do City Bureau, organização norte-americana parceira nossa. Nada nos deixa mais felizes do que receber o apoio de vocês! <3 Thank you very much Harry for all the support!

Um salve e muito obrigada a todes apoiadores da Énois ♥

Ana Luiza Gaspar, Amanda Rahra, Andrei Rossetto, Angela Klinke, Anna Penido, Alexandre Ribeiro, Bernardo de Almeida, Camila Haddad, Carolina Arantes, Claudia Weingrill, Daniela Carrete, Danielle Bidóia, Danilo Prates, Darryl Holliday, Felipe Grandin, Fernanda Miranda, Fernando Valery, Flavia Menani, Fred Di Giacomo, Frederico Bortolato, Giuliana Tatini, Guilherme Silva, Gilberto Vieira, Harry Backlund, Juliana Siqueira, Júnia Puglia, Larissa Brainer, Luciana Stein, Mauricio Morato, Natalia Barbosa, Nataly Simon, Rafael Wild, Renata Assumpção, Ricardo Feliz Okamoto, Susu Jou, Tatiana Cobbett, Vanessa Adachi, Vinícius Cordeiro e Vitor Abud. Se você quer ver seu nome aqui, basta se tornar nossa apoiadora ou apoiador: benfeitoria.com/enois

Apoie a Énois! Com R$ 10 por mês (ou mais) você ajuda a gente a seguir fortalecendo e produzindo um jornalismo mais diverso! benfeitoria.com/enois

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