Diversa

Como ser antirracista na sua forma de financiar o jornalismo

04 de Novembro de 2020

Oi, gente. Nina aqui 🙂

Na última Diversa o Kayam, nosso residente de captação, falou sobre o quê – a partir das experiências da Énois – aprendemos das diversas estratégias de arrecadar recursos para fazer jornalismo no Brasil. Imediatamente fomos provocados pela Simone Freire, liderança do eixo de Jornalismo Local, sobre o primeiro tópico: formalização. Pra ela, essa lógica, apesar de garantir aos financiadores que o risco do investimento social seja menor, porque a institucionalização exige que a organização preste contas, é um mecanismo excludente e racista.

A maior parte das iniciativas em periferias e regiões distantes de centros urbanos não possui CNPJ. E a formalização em si é uma das primeiras e mais difíceis barreiras de entrada para o financiamento. Daí pra frente pode ser ladeira abaixo. Sem grana para lidar com as burocracias institucionais, esses coletivos não acessam financiamento, sem financiamento, atuam voluntariamente. Alguns se dão bem com este formato de trabalho, mas muitos acabam desistindo do projeto.

Existem sim algumas poucas oportunidades que quebram esse paradigma. Editais públicos como o Edital de Fomento à Cultura da Periferia e o VAI – para qual os recursos caem ano após ano –, aqui em São Paulo, aceitam projetos inscritos por um CPF, por exemplo. E ainda raras, mas existentes, fundações e institutos começam a se movimentar para atuar com bolsas que não exigem esse nível de institucionalização.

Mas não é suficiente e a Simone tem razão. A lógica de financiamento para o jornalismo no Brasil é excludente, centralizada e muitas vezes racista. Quem tem acesso aos contatinhos e círculos sociais chega mais fácil na grana. Quem é capaz de manter essas relações a médio e longo prazo também. E normalmente essas pessoas tem cor e classe definida: brancos e ricos. Dentro das organizações de jornalismo e, principalmente, dentro das fundações.

A Énois se beneficia desse sistema também. Daí a dica de se formalizar. Temos hoje dois CNPJs. Um atua como agência, uma empresa com fins de lucro, que capta recursos via, principalmente, prestação de serviços. É com ele que fazemos consultorias e projetos específicos para empresas. O outro é uma ONG. Uma associação sem fins de lucro que opera a partir de sua missão – que é tornar o jornalismo mais democrático, representativo e inclusivo. A empresa, no entanto, não divide lucro entre as acionistas. Que na prática somos eu, Amanda Rahra e Simone Cunha. O que sobra na conta é doado para a ONG. Tá aqui nossa prestação de contas de 2019 pra você saber 🙂

Demorou uns 6 anos pra gente entender que esse formato – apesar de mais custoso, porque temos que pagar tudo duas vezes, inclusive a contabilidade –, era também o que nos traria mais oportunidades de captação. ONGs em sua essência não podem prestar serviço. E empresas muitas vezes não podem participar de prêmios, editais e financiamentos de organizações internacionais. Com os dois CNPJs a gente fica apto a receber dinheiro de quase todo mundo. É na prática uma solução jurídica para o que as pessoas chamam de negócio social.

Isso – e o fato de sermos mulheres brancas e de classe média – nos coloca na frente de uma série de coletivos e organizações que por escolha ou situação não se formalizaram. E é nesse sentido que temos experimentado uma outra atuação. Em 2020, 30% do orçamento dos projetos do eixo de Jornalismo Local, por exemplo, foi distribuído, por meio de bolsas de reportagem, a outros coletivos e indivíduos que atuam com comunicação e jornalismo em seus territórios. Com o resto do dinheiro oferecemos formações em jornalismo para esses mesmos coletivos e indivíduos.

Acreditamos que, ao fazermos isso, não estamos só potencializando o trabalho da Énois, mas abrindo uma possibilidade para quem está no campo atuar com recursos sem exigir uma formalização. Quem presta contas do uso desse dinheiro somos nós. Arcamos com todos os custos legais e fiscais dessas operações. E na paralela também mostramos aos financiadores a potência que o campo possui. Abrindo um diálogo pra repensar os modelos de financiamento.

Não quero dizer, com isso, que a gente tá salvando ninguém de nada. A grana ainda é muito pequena e irrelevante pra sustentar qualquer projeto. Mas também acreditamos que, assim como tudo que a gente faz, temos que começar por algum lugar. Precisamos repensar as formas com as quais organizações e empresas apoiam o jornalismo. Não acreditamos que hoje, no Brasil, seja possível sobreviver sem esses apoios.

Cada vez mais as pessoas se conectam a iniciativas locais e comunitárias para sanarem suas necessidades de informação – além de o Brasil ser um grande deserto de notícias onde mais da metade dos municípios tem sequer um veículo fazendo sua cobertura. Acompanhando esse movimento, fundações e financiadores que hoje apoiam o jornalismo deveriam também experimentar novas formas de aportar seus recursos. Modelos que não criem barreiras de entrada para quem já está fazendo mais do que pode pra garantir que a informação sustente processos democráticos num contexto micro.

Nas pesquisas que fizemos com uma rede de mais de 120 jornalistas distribuídos em diversas regiões do país (dos quais 73% se autodeclaram negros e 9% indígenas), 66% disseram que o princpal desafio para atuar cobrindo seus territórios é econômico. Em segundo e terceiro lugar estão infraestrutura e tempo. Que também tem tudo a ver com dinheiro.

Como podemos mudar esse cenário? Se você é financiador e está lendo esse texto, juntei abaixo alguma dicas tiradas desse relatório quentinho (de outubro de 2020), produzido pela consultoria estadunidense Frontline Solutions, sobre como transformar o jornalismo e o financiamento dele considerando a equidade como ponto de partida.

Vai abrir a carteira. Pergunte primeiro:

1. Quem tá na sala? Quem vai operar o projeto? Qual a raça, o gênero e histórico de atuação social dessas pessoas?

2. Essas pessoas estão em cargos de tomada de decisão? São elas que decidem a pauta? Que histórias serão contadas?

3. Quem escreveu o orçamento do projeto? E como a distribuição do recurso internamente está articulada?

4. Seu processo de seleção elimina ou cria barreiras para que organizações sociais e coletivos de comunidades atuem? Se ele é em inglês, você já tem um problemão nas mãos. Quão próximo você está dessas organizações? Quantas delas você financia hoje?

5. Quem toma decisões do seu lado do balcão? Qual o perfil dessas pessoas e como você pode trabalhar para que ele seja mais diverso?

6. Lute contra a crença de que apenas uma quantidade limitada de financiamento é disponível, e que, por isso, só se deve investir em organizações com retorno garantido. Primeiro, porque essa lógica privilegia o status quo e amplia o abismo entre organizações do campo. E segundo, porque se assume um retorno garantido sobre os investimentos. E isso não é, na realidade, garantido a ninguém.

7. Ouça as comunidades que você quer atender antes de decidir como será feito seu investimento social. Reavalie seu portfólio se for preciso. Transforme isso num hábito. Sua fundação pode criar uma base de dados e de impacto a partir desse acompanhamento e escuta.

8. Redefina o que é impacto pra você. Em vez de projetar indicadores em cima de metas de publicidade, alcance, número de pessoas, engajamento, etc, pense no que, de fato, cumpre a sua missão social.

9. Compartilhe poder. A relação financiador e financiado já é desigual. Para torná-la mais equilibrada, entenda o que pode ser melhorado no processo de admissão e também de prestação de contas. As perguntas do seu edital são feitas em código? Que outras coisas além de dinheiro sua entidade pode oferecer? Como você pode simplificar e flexibilizar seu processo de admissão? É possível destinar recursos para a institucionalização dos projetos que quer apoiar?

10. Crie canais de feedback. Mas não adianta mandar aquelas pesquisas super longas de serem respondidas. Gestores e lideranças locais já têm um tempo escasso. Aproveite momentos informais, como uma troca de emails ou uma conversa genuína, para entender o que pode ser melhorado.

E se você é pessoa física, tá ainda mais fácil de tomar essa decisão. Aproveite a chegada do décimo terceiro e faça uma doação (ou melhor, assine de forma recorrente) uma ou mais iniciativas de jornalismo e comunicação. Aqui tem uma lista pra você escolher:

NO RADAR

Estamos perto de completar um mês do Programa de Diversidade nas Redações, uma construção coletiva com 10 redações espalhadas pelo País que vai durar até outubro de 2021. A Agência Saiba Mais (RN), BHAZ (MG), Congresso em Foco (DF), Diário do Nordeste (CE), ES Hoje (ES), Marco Zero Conteúdo (PE), Nonada – Jornalismo de Travessia (RS), O Povo (CE), Plural (PR) e Sul21 (RS) foram escolhidos pelo programa e acolheram em suas redações repórteres com perfil diverso. Juntos, vamos ampliar a cobertura racializada, de desigualdades sociais, imigração, gênero, religião e outros vieses pouco abordados, além de trabalhar em construções sobre estruturas sociais, linguagens e estereótipos, equilíbrio emocional, espaços de cuidado na redação, escuta da comunidade e medição de impacto.

Na primeira formação, que durou dois dias, falamos sobre cobertura das eleições a partir da diversidade com a jornalista Fabiana Moares e sobre diversidade na gestão pública e nas plataformas de campanha, com a socióloga Pagu Rodrigues. Também tivemos uma formação sobre como distribuir melhor os conteúdos jornalísticos olhando para os territórios com a jornalista da Énois, Sanara Santos. Confira algumas das histórias que resultaram desses encontros:

► Candidaturas indígenas crescem e se espalham por dez partidos em Pernambuco. Por Kleber Nunes para a Marco Zero Conteúdo (Recife).

Rendimento médio: Negros recebem 49% menos do que os brancos em Fortaleza, diz pesquisa. Por Natali Carvalho para o Diário do Nordeste (Fortaleza).

‘O Legislativo precisa de mim’: Porto Alegre tem recorde de candidaturas trans com propostas diversas. Do Sul21 (Porto Alegre).

Mulheres são minoria entre candidatos de Curitiba. Por Gabriela Soares para a Plural (Curitiba).

► Mulheres representam apenas 11% das candidaturas para prefeituras do Espírito Santo. Por Gabryella Garcia para o ES Hoje (Vitória).

► Onir de Araújo: “Povos quilombolas estão sendo retalhados pela demora do Incra”. Por Ester Caetano para o Nonada (Santa Maria)

Brecha na lei das eleições deixa diversas mulheres sem repasse do fundo eleitoral. Por Gabryella Garcia para o ES Hoje (Vitória).

Indígenas Guarani e Kaingang somam mais de 130 candidaturas no Rio Grande do Sul. Por Thais Seganfredo, do Nonada (Santa Maria).

Muito obrigada a todes apoiadores da Énois ♥

Ana Luiza Gaspar, Angela Klinke, Anna Penido, Bernardo de Almeida, Camila Haddad, Carolina Arantes, Claudia Weingrill, Daniela Carrete, Danielle Bidóia, Danilo Prates, Darryl Holliday, Felipe Grandin, Fernanda Miranda, Fernando Valery, Flavia Menani, Fred Di Giacomo, Frederico Bortolato, Giuliana Tatini, Guilherme Silva, Juliana Siqueira, Júnia Puglia, Larissa Brainer, Luciana Stein, Mauricio Morato, Natalia Barbosa, Nataly Simon, Rafael Wild, Renata Assumpção, Susu Jou, Tatiana Cobbett, Vanessa Adachi, Vinícius Cordeiro e Vitor Abud.

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