História e histórias

É o que temos aqui.

Depois de uma grande e linda parceria com a Feira Preta em 2019 para distribuir o Prato Firmeza volume 3, que permitiu que o livro – e quem fez parte dele – ocupasse novos espaços, o laço se fortaleceu e o recorte que adotamos na distribuição de ontem passou a pautar a produção do agora.

Não é de hoje. Falar de periferia sempre foi falar de negritude. Metade das mais de cem empreendedoras/empreendedores presentes nos três livros anteriores se declaram pretas ou pardas. O que trazemos neste quarto volume é uma obra totalmente dedicada a mapear empreendimentos gastronômicos de pessoas negras da capital e região metropolitana de São Paulo.

Para seguir ampliando o conceito de que existe muita comida boa espalhada pela cidade, mas, principalmente, para assumir o controle de nossas próprias narrativas e decolonizar pensamentos, contra um racismo que de um lado resume no imaginário coletivo a gastronomia negra apenas à “cozinha da Tia Nastácia” e de outro faz com que “Donas Bentas” estampem as capas dos livros de receitas.

Não é sobre uma cozinha ser mais ou menos importante do que outra. A ideia equivocada de alta e baixa gastronomia já ficou para trás lá no primeiro guia. É sobre uma cozinha que não é mais um local de servidão, mas sim de criação e manifestação de cultura, de afeto, de empreendedorismo, de carreira profissional; repleta de referência, conceito, técnica, embasamento teórico e conhecimento ancestral. É gastronomia mesmo. Das cozinheiras escolares às chefs estreladas, aqui todo mundo é Prato Firmeza.

Prato Firmeza Preto.

Algo dessa magnitude não poderia ser feito sozinho. Se o nosso lema sempre foi descentralizar o rolê, isso acabou se reverberando internamente também. E se já começou coletivo, a gente quis mais: botamos mais água no feijão e convidamos uma galera para produzir junto e participar de todas as etapas do processo. São cinco veículos de diferentes quebradas. Referências. Cada um dentro do seu contexto, abordagem e potência, que se encontram na construção diária e prática de um jornalismo mais diverso e com mais qualidade. Do local pro mundo. Nóis por e com nóis.

Os textos que você irá ler foram produzidos por 17 repórteres, jovens entre 19 e 45 anos, da Alma PretaAgência MuralPeriferia em MovimentoPreto Império e Vozes das Periferias, que se juntaram à Énois para somar de cada canto da cidade e formar maior equipe que já tivemos. Um projeto de muitas mãos. Mãos pretas. Toda a equipe principal, da reportagem à coordenação, do design à edição, é composta por pessoas negras.

E como produzir um guia gastronômico durante uma pandemia que, entre outras consequências gravíssimas e abismos sociais ainda mais expostos, provocou o fechamento de tantos estabelecimentos e fez com que as pessoas deixassem de sair de casa? Enquanto material jornalístico e político, é importante que ele cumpra seu objetivo principal de prestar um serviço relevante ao público, sem ignorar a situação em que vivemos. Como aproximar as pessoas, mantendo esse superpoder que a comida tem, mesmo estando longe?

Por isso, também nos reinventamos na produção: todas as entrevistas foram feitas à distância e as comidas entregues por delivery, em uma logística até então inédita por aqui, para proporcionar a cada repórter uma experiência saborosa e acolhedora em sua própria casa, com segurança, responsabilidade e cuidado, em todos os sentidos. As informações de entrega, possível em todos os lugares mapeados, estão mais detalhadas. E agora, além dos estabelecimentos com espaço para receber o público, trouxemos negócios itinerantes ou que trabalham apenas por encomenda.

“Cuidado”, palavra da moda, para nós significa ainda olhar para toda a cadeia que envolve o nosso trabalho. A discussão legítima sobre precarização do emprego da classe dos entregadores – formada em sua maioria por pessoas negras e periféricas – se intensificou nesses tempos e a gente chegou junto. Com isso em mente e na contramão dos aplicativos, montamos a nossa própria equipe de entregadores e entregadoras, contratadas e remuneradas de maneira justa, com suas experiências de trabalho e de vida registradas em um capítulo próprio.

Construir um projeto nesse cenário e trazer a discussão racial para o centro da nossa pauta possibilitou inclusive a expansão do próprio conceito de Prato Firmeza: o território, palco da nossa existência, ganhou novas camadas, outras pluralidades, e transcendeu o espaço físico. Pela primeira vez, o guia não está dividido pelas zonas da cidade. Em vez disso, temas variados que unem cada uma das 40 histórias aqui contadas, dos territórios às territorialidades. Fomos até para o centro expandido! Mas com a plena consciência de onde viemos e para onde – e com quem – vamos.

Vamos longe.

E vamos todes. Nossa cozinha encheu de gente e o prato ficou mais firmeza do que nunca.

Salve Benedita Ricardo de Oliveira, ou Benê Ricardo, a primeira mulher a se tornar chef de cozinha profissional no Brasil. Uma mulher negra.

Salve Mariya Russell, a primeira mulher negra a conquistar uma estrela Michelin, com o Kikkō, em Chicago, em 2019. O guia dá estrelas a restaurantes desde 1926.

Salve Matheus Oliveira, cozinheiro e criador do Prato Firmeza.

Salve Cidinha Santiago.

Salve Andressa Cabral, Dandara Batista, Danni Camilo, Kátia Barbosa, João Diamante, Larissa Januário, Léo Filho, Lili Almeida e Patty Durães.

Salve Laércio Zulu, Rodolfo Bob e Yuri Evangelista.

Salve Pitchou Luambo e tantos imigrantes e refugiados que vivem e sobrevivem por aqui.

Salve Hailton Arruda e Michele Crispim.

E muitas outras pessoas, irmãos e irmãs, que são referência em suas próprias diversidades e fazem todos os dias, desde sempre, a gastronomia ter mais a nossa cor e a nossa cara.

Esse é só o começo!

Guilherme Petro

Editor-chefe do Prato Firmeza Preto
Residente do eixo de Produção e Distribuição

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