Diversa

O que aprendemos quando apontamos o racismo abertamente

01 de Julho de 2020

É necessário olhar para dentro e enxergar os padrões e privilégios que corroboram com a estrutura segregadora

Ser uma organização que se propõe a empurrar as barreiras do jornalismo para abrir espaço para a diversidade é a missão da Énois. No dia a dia, isso acontece tanto pra fora quanto para dentro da organização.

Atravessa nossas parcerias e construção de projetos de jornalismo e de formações. E nos atravessa individualmente, como profissionais que se propõem a incentivar e trabalhar com a diversidade como eixo central das nossas práticas.

E o que quer dizer ter a diversidade como eixo central do nosso fazer?

Que estudamos pra enxergar como nós e nossos parceiros fortalecemos as estruturas segregadoras que formaram nosso país e mantém as bolhas de privilégio. Operamos com a chave da desconstrução nos projetos e nas produções, convidando o desconforto, o constrangimento, a revisão constante do que achamos que sabemos. E apontamos o racismo, o machismo, a transfobia e o classismo que não deixa quem é fora do padrão estar, falar, saber, ditar.

Nas práticas, buscamos retratar e formar um mundo que existe, mas está escondido pelo pré-concebido:

► nas fontes que ouvimos, observamos, consideramos;

► na definição de quem pode ser considerado especialista, jornalista, profissional;

► na busca por encontrar o pensamento colonizado também sobre o que é a técnica jornalística;

► na percepção de que a diversidade da equipe que produz afeta diretamente o produto: formato, linguagem, distribuição, recorte.

QUEM ESTÁ DISPOSTO A FAZER ISSO?

 

É comum que organizações de jornalismo nos observem de fora e sintam o desejo de construir projetos juntos. Mas é igualmente comum que as pessoas que formam essas organizações não estejam dispostas a ser constrangidas ou confrontadas com suas práticas que perpetuam o racismo estrutural. Trabalhar com jovens brancxs, negrxs e indígenxs das periferias é se propor a rever práticas, saberes e olhares. Ou deveria ser. E nosso papel como profissionais e organização é continuamente nomear essas questões. Isso começa em confrontamentos internos, que depois ressoam para fora.

Recentemente, por exemplo, abraçamos dois projetos de parceria de comunicação que tiveram roteiros de conclusão parecidos. A ideia era trabalhar com a juventude que faz parte e colabora com a Énois numa produção que se espelhasse nessa equipe. Nenhuma das duas parcerias se concluiu como previsto.

No fechamento, nossa equipe de repórteres e editoras teve a competência questionada pelas entrelinhas do racismo e do classismo. Foram questionadas as fontes que escolhemos pra entrevistar (professorxs e jornalistas negrxs que não são figurinhas carimbadas do jornalismo empresarial), os casos que escolhemos apurar e a maneira como nossos repórteres falavam nos vídeos.

Quando estas questões foram apontadas pela equipe de produção à coordenação, o primeiro conflito foi interno. Não é simples nomear, nem é simples escutar. Mas é necessário para transformar em ação. Numa reflexão interna, nossa coordenação (que é feita por mulheres brancas) percebeu que às vezes nos sentimos agredidos quando confrontados com nossa participação cotidiana na construção do racismo estrutural. Tem um texto em inglês sobre isso na New Yorker: a fragilidade branca (dá pra usar o tradutor do Google pra ler em português). Os dois projetos foram concluídos com e-mails enviados pelas coordenadoras que davam os nomes aos bois: “precisamos nos responsabilizar pelo fortalecimento do racismo, classismo e transfobia”.

Foi assim também com algumas das pautas que fizemos na Escola de Jornalismo e na Agência (estruturas que a Énois tinha até 2019). A equipe de jovens da EJ precisou questionar a exigência de verificar o antecedente criminal de um jovem negro assassinado pela Polícia Militar de São Paulo, foco de uma reportagem. Isso trazia implícita a suposição de que ele poderia ser bandido, disseram à coordenação e aos editores. Ninguém via?

A equipe da Agência recorrentemente apontava a editores de veículos parceiros que certos títulos e mudanças de texto estigmatizavam personagens e fontes. Gerou incômodo?

A tensão acontece dentro da Énois. Dentro de cada um. Gera estresse, raiva, incomoda. E se não desviamos desses sentimentos, deixar passar essas situações em silêncio se torna impossível.

Nos colocamos, individual e coletivamente, questões como essas:

Como editar textos de jovens que não têm a mesma origem de seus editores?

E como não reforçar as estruturas que queremos combater no atropelo dos cronogramas?

Que critérios usamos para aprovar ou descartar textos de jovens na Escola de Jornalismo? Como não ser condescendente, mas ter sensibilidade de considerar que as referências e pontos de partida na sociedade em que vivemos são muito distantes entre si?

Podem jovens brancos e brancas serem protagonistas de pautas ou eventos negros?

Como acolher uma denúncia de assédio dentro da instituição?

Como encaminhar resoluções que não reforcem o punitivismo tão já empregado a jovens de periferias, mas que acolham as vítimas?

Ao nomear e questionar abertamente o racismo, a transfobia, o classismo e o machismo, criamos estruturas e relações baseadas no diálogo necessário. Isso abre espaço para que comecemos a desenhar tecnologias e estratégias de transformação delas. Por isso, estamos sistematizando nossos aprendizados, práticas e experiências, para compartilhar com quem mais esteja disposto a trilhar caminhos rumo à diversidade.

Comunicação e transparência para dentro e para fora da organização guiam esse processo, que não é suave. Mas devagar vemos surtir efeitos. Nos profissionais parceiros que passam a ter maior compreensão de como se materializam as estruturas discriminatórias em suas práticas. Na coordenação aprendendo que os jovens estão cansados de ter que nomear e levantar essas questões. Nas editoras defendendo repórteres, suas apurações e pautas, ao mesmo tempo em que cobram profissionalismo e excelência em seus trabalhos. Na pesquisa do que é o cuidado dentro de uma organização e como a saúde mental é central no que fazemos. É preciso girar muitas chaves pra que a diversidade seja uma prática. Ainda que devagar.

Jéssica Mota, editora e líder de Produção e Distribuição na Énois

NO RADAR

 

► A censura de figuras históricas no movimento negro do site da Fundação Palmares, incluindo Zumbi, foi reportagem de capa da Ilustrada da Folha em reportagem conjunta com o Alma Preta.

► Um fio da repórter Julia Dolce lista os monumentos históricos negros e indígenas destruídos ou jamais preservados e contrapõe o argumento de que as estátuas de heróis brancos colonizadores não podem cair. E o advogado Thiago Amparo faz uma coluna na Folha argumentando porque o bandeirante Borba Gato tem de ser tirado do posto: “não se trata de revisar a história, mas sim o lugar de heróis que nela concedemos a genocidas”.

► 2 cursos do Knight Center para avançar em diversidade começam no dia 22 de junho: liderança para mulheres jornalistas, em espanhol, e Equidade e ética em reportagens de dados, em inglês.

► O chat corporativo do Facebook permite que os gestores censurem palavras como “sindicalizar”, mostra reportagem do The intercept.

► 5 passos para elevar a representatividade em sua redação já, que levam a desaprender hábitos e vieses que fizeram parte de nossa profissão por tanto tempo. 1. Audite as fontes das reportagens e das redes 2. Estimule organizadores a construir mesas diversas 3. Audite suas próprias fontes a cada seis meses 4. Aprenda mais sobre história racial 5. Leia mais sobre raça e jornalismo. Bem em linha com o que algumas jornalistas negras apontaram na edição passada da Diversa.

► Google aponta como contratar e manter equipes diversificadas, a partir das experiências da Rare, empresa deles para desenvolver cultura empresarial mais inclusiva.

► Motoboys preparam ‘greve’ contra aplicativos de entrega em 1º de julho. Para Agência Mural, eles relatam cuidados para proteger família e falam sobre os dias de trabalho com a pandemia.

► A repórter negra Alexis Johnson, que foi retirada da cobertura dos protestos após a morte de George Floyd, nos EUA, processou o jornal por discriminação racial. Ela foi retirada depois de twittar fotos do lixo deixado após um show em resposta à destruição nas ruas durante os protestos antirracistas. E o processo aponta que os editores não tomaram medidas contra um repórter branco que se referiu a um suspeito de vandalismo como uma “sacola de escória” em um tweet.

► ‘Este normal não está OK’: mais de 150 funcionários do Wall Street Journal enviam uma carta aos editores sobre a falta de diversidade na redação.

Acompanhe as últimas reportagens publicadas pela parceria da Énois com Gênero e Número, AzMina e data_labe:

► Só 55% dos hospitais que ofereciam serviço de aborto legal no Brasil seguem atendendo na pandemia. Em 13 estados brasileiros e no Distrito Federal, não há serviço disponível de interrupção legal da gestação. Vítimas de violência sexual, mulheres com risco de morrer devido à gravidez e casos de anencefalia ficam ainda mais desassistidas na pandemia. Da Revista AzMina e Gênero e Número.

► Favelas organizam limpeza e jateamento para combater Covid-19, mas falta de saneamento é o grande obstáculo. Notícia da presença de coronavírus em fezes e esgotos acende sinal vermelho no Brasil; país tem menos da metade do esgoto tratado. Do data_labe.

► Quebrada cria seus próprios aplicativos de entregas para sobreviver à crise. Da Énois e data_labe para UOL.

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