Diversa

Por que repensar o processo seletivo na contratação de profissionais de jornalismo?

01 de Outubro de 2020

Temos um caminho para ajudar redações a fazer isso 

Oi, boa tarde! Como estão as coisas por aí?

Bora falar sobre diversidade e contratação no jornalismo?

Diversidade tem sido a grande pauta do momento, gerando discussões acaloradas depois da abertura de um processo seletivo apenas para negros e negras pelo Magazine Luiza. Que bom. Precisamos abrir esses espaços e algumas empresas têm apostado na mudança da equipe, repensando as formas de encontrar e valorizar pessoas, dando prioridade a determinados grupos sociais. É uma estratégia para melhorar seus resultados e ter maior alcance de público.

“Se tivéssemos mais representatividade de mulheres e negros – que é nossa questão mais sensível hoje – na liderança, teríamos ações mais efetivas. Isso geraria mais vendas e, em última instância, mais retorno aos acionistas”, disse o presidente da MagaLu, Frederico Trajano, ao Estadão.

Contratar alguém de perfil diverso, ou seja, pessoas negras, LGBTQI+, pessoas com deficiência, não é suficiente para se intitular uma instituição preocupada com representatividade e inclusão. Nem para mudar a produção e a conexão com a sociedade a partir dessa estratégia. Precisamos refletir, estudar e reprogramar nosso entendimento sobre sociedade, poder, valor e o lugar a que pertencemos dentro desta estrutura.

Por isso, é necessário traçar metas, investir tempo e recursos, preparar o terreno para a chegada destas pessoas, para que não seja mais uma “iniciativa que tapa buracos”. Não adianta contratar sem preparar a equipe, sem pensar na chegada e permanência da pessoa contratada.

Isso significa traçar perspectivas de permanência e futuro. O espaço físico está preparado para sua chegada? Há escuta? Essa pessoa tem chances de subir de cargo? Já parou pra pensar que no Brasil, 54% da população é negra (autodeclarados pretos e pardos, pelo IBGE), mas raramente há pessoas negras nos espaços de poder e disputa de narrativa?

Olhando para o cenário do jornalismo nacional, não há transparência e dados sobre a realidade das redações, o que dificulta o mapeamento da falta de diversidade nos veículos. Os dados apontam para um diagnóstico. A partir deles podemos mudar a realidade.

Uma pesquisa realizada pela Énois com 64 redações, identificou que há desigualdade salarial entre negros e brancos. 20% das pessoas brancas ganham até 10 salários mínimos, enquanto mais de 40% das pessoas negras ganham até 3 salários mínimos. Quando fizemos a pergunta: “Há ações voltadas para diversidade dentro da sua redação?”, apenas 27% responderam que sim, contra 73%, que não possuem nenhuma ação.

Mulheres são a maioria nas redações, mas nem sempre estão em cargos de tomada de decisões. Nesta pesquisa feita pela Gênero e Número e pela Abraji, 70% delas responderam que já ouviram comentários ou piadas assediadoras no trabalho, o que impacta na saúde mental e equilíbrio emocional neste ambiente.

Essa discussão parece passada – e deveria ser -, mas o óbvio precisa ser dito. É por equipes muito iguais, brancas e de elite que o jornalismo é produzido. Essa é a cara da objetividade e da técnica. E em todos os lados, para todos os perfis sociais e raciais há o famoso “viés inconsciente”.

A jornalista Camila da Silva, especialista em contratação e diversidade, alerta que muitas vezes esse viés norteia a escolha das pautas e fontes, inclusive de quem escreve e fala sobre determinado assunto. E esse mesmo processo de identificação e falta de percepção da subjetividade traz crenças e estereótipos que influenciam no processo de contratação e recrutamento.

“Viés inconsciente é o nosso puro e simples preconceito, só que na linguagem de RH. E eu prefiro usar, às vezes, porque as pessoas ficam mais abertas a ouvir o que é. Mas é a ideia que a gente faz de algo, antes de conhecer o algo de fato”, aponta Camila. “É a decisão que a gente toma de acordo com o que aprendemos na escola, com nossos pais e principalmente experiências de vida. Quando eu falo que isso fica mais evidente no processo de recrutamento é porque uma das coisas do viés inconsciente é que a gente instintivamente valoriza e prioriza nossos pares. Já entrou em redação de jornal e viu como a galera de determinadas áreas se vestem igual, falam igual e etc?”

O  diagnóstico obtido nas pesquisas citadas aqui é quase um raio-x da nossa sociedade. Em sua maioria, em cargos altos e de tomada de decisão estão homens brancos, cis, héteros de classe média ou ricos. O problema é que esse tipo de configuração não propõe e nem reflete sobre acessos. Vivemos em um mundo onde cada vez mais a diversidade é vista como prioridade e um caminho de construção coletiva e efetiva.

Durante nosso processo seletivo para o Programa Diversidade nas Redações, por exemplo, perguntamos e priorizamos a trajetória social de cada pessoa, além de estarmos presentes na entrevista, conduzindo o processo de contratação junto com editores e editoras. Algumas pessoas entrevistadas relataram se surpreender com essa pergunta. A seleção é uma escolha, é o momento de fazer perguntas que mostrem potências e valores desconsiderados e tirar as que excluem por preconceito e automatismo.

Pode ser difícil começar sozinho a repensar os processos de contratação, seleção e até de divulgação das vagas. Só que tem redações que já fizeram e gente que pode apontar caminhos já percorridos.

Na Caixa de Ferramentas de Diversidade trazemos um passo a passo de como avaliar o processo seletivo que a organização faz, encontrar os pontos de atenção e redesenhar onde chegar, com base na experiência do Nexo, coordenada pela Camila.

Essa construção tem tudo a ver com sustentabilidade financeira das organizações jornalísticas. Lembrem do que disse o presidente do Magazine Luiza, que é uma das dez maiores varejistas do país e está apostando nisso. Não é por dívida social, é por relevância, acuracidade, qualidade do produto.

Tem a ver com ampliar a audiência, a conexão com o público, a capacidade de impacto e o engajamento da equipe.

O jornalismo precisa apostar na diversidade para se fortalecer. E você pode começar por aqui.

Um abraço,

Mel Oyá
Residente do eixo de Estrutura Jornalística

EJ PELO MUNDO

 

Nesta nova seção, vamos passar a compartilhar o trabalho de jornalistas que passaram pela Escola de Jornalismo da Énois. Quer ter seu trampo divulgado aqui? Escreve pro contato@enoisconteudo.com.br com o assunto “EJ pelo mundo”.

Jefferson Delgado é jornalista e fotógrafo. Passou pela Escola de Jornalismo em 2017 e, já na época, tinha seu próprio canal no Youtube, o Favela Business. Cria do Jardim Rosana, Zona Sul de São Paulo, ele começou 2020 fotografando nada menos do que o bloco de carnaval do Emicida. E apesar da pandemia, não deixou a peteca cair e tem trabalhado em campanhas de marcas grandes como Nike e produzido conteúdo para festivais como a Copa das Favelas e Coala Festival.

Siga o Jeff nas redes pra saber o que tá rolando: @jefdelgado no Twitter e @jef.delgado no Instagram.

NO RADAR

► Bafafá é uma pesquisa para mapear a diversidade nas redações jornalísticas e entender o ambiente e o espaço para profissionais não brancos. O projeto foi vencedor do desafio no Hackathon de Diversidade no Jornalismo, que aconteceu em março de 2020. O encontro tinha como objetivo criar soluções para a falta de representatividade, diversidade e inclusão no jornalismo. Foi realizado pela Énois em parceria com o Google News Initiative e com apoio do Insper.

► Camila Silva e Luzinha Noleto são as responsáveis pelo Bafafá. Saiba mais aqui. Participe do mapeamento aqui.

► As organizações de notícias sem fins lucrativos estão se tornando mais diversas, mas ainda ficam atrás em relação às comunidades que cobrem. Mais da metade de todos os estabelecimentos sem fins lucrativos não têm pessoas não brancas ou tem “apenas uma pequena porcentagem” em suas fileiras. A grande maioria – mais de dois terços – não possui uma única pessoa negra na liderança no nível executivo. (Em inglês)

 

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