Diversa

Qual a importância do jornalismo local para as periferias e favelas do Brasil?

 

06 de novembro 2021

 

A minha geração, aquela que cresceu nos anos de 1990 ouvindo rap e sonhando em fazer a revolução, sabia que aquilo que era dito nos meios de comunicação tradicionais não representava a nossa realidade.

 

Gisele Alexandre, coordenadora do projeto Mapa do Jornalismo Local da Énois

Oi, tudo bem com você? Espero que sim! Aqui é Gisele Alexandre, sou jornalista do Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo, fundadora do podcast Manda Notícias e atualmente estou coordenando um projeto muito legal aqui na Énois chamado Mapa do Jornalismo Local.

Fui convidada pra te contar um pouco de como tem sido esse trampo e, além disso, gostaria de te propor uma reflexão sobre a importância do jornalismo local para as periferias e favelas do Brasil. Bora trocar essa ideia?

Eu já tinha 23 anos quando comecei a faculdade de jornalismo. Naquela época, início dos anos 2000, a internet era bem limitada, e a gente na quebrada achava que jornalismo era só aquele que passava na TV aberta ou que vendia na banca de jornal. Só que não!

A minha geração, aquela que cresceu nos anos de 1990 ouvindo rap e sonhando em fazer a revolução, sabia que aquilo que era dito nos meios de comunicação tradicionais não representava a nossa realidade. E foi por causa desse incômodo que começaram a surgir as primeiras mídias locais, pelo menos é essa a história que eu conheço e, com muito orgulho, faço parte.

O jornalismo local produzido por comunicadores e comunicadoras das periferias e favelas tem o compromisso de levar informação a partir da realidade de quem vive nas bordas da cidade e, muitas vezes, está às margens dos seus direitos fundamentais.

Esse tipo de jornalismo, que algumas vezes é invisibilizado e até colocado em dúvida, é capaz de compreender as necessidades dos moradores e moradoras de uma maneira única. Afinal, quem se propõe a atuar nesse trabalho quase sempre é também um integrante da comunidade, então sabe e sente quais as necessidades do público dali. Dessa maneira, produz notícias com a certeza de sua relevância. O comunicador e a comunicadora periférica não são apenas “narradores de fatos”, muitas vezes eles também são fontes ou personagens das histórias contadas.

E é por isso que, pra mim, saber quem são e como atuam esses jornalistas das quebradas, é de extrema importância. Por que assim podemos nos fortalecer nesse trabalho, que também é uma luta de classe por um jornalismo mais plural e diverso. 

Para construir o Mapa do Jornalismo Local, selecionamos quatro jovens pesquisadoras, comunicadoras e moradoras de territórios periféricos, para levantarem dados de veículos jornalísticos e de difusão cultural existentes nas bordas dos 40 municípios da região metropolitana de São Paulo. Nosso objetivo é construir um grande mapa interativo das iniciativas que trabalham pela democratização da cultura e do jornalismo nas periferias, dando assim visibilidade e permitindo que esses produtores de conteúdo criem suas próprias redes de contato.

Ao longo da realização do levantamento, nós e, principalmente, as pesquisadoras, fizemos muitas descobertas interessantes que provocaram inúmeras reflexões. A pesquisadora Ana Cristina da Silva Morais, moradora do Capão Redondo, trouxe para o grupo a subjetividade do termo “periferia”, um substantivo muito comum na capital paulista, usado para designar não apenas uma região geográfica que está nas bordas da cidade, mas também bairros vulneráveis. Porém, que não fica tão evidente quando aplicado no contexto de um município menor, onde as limitações territoriais e de classe são mais complexas.

Todo o levantamento foi feito de maneira virtual, por isso, um dos principais desafios das pesquisadoras foi identificar veículos locais que usam as redes sociais como principal, e muitas vezes único, canal de difusão dos seus conteúdos. Para a pesquisadora Ariane Costa Gomes, moradora de Osasco, apesar do grande número de páginas que se identificam como noticiosas, não são muitas aquelas que se propõem a produzir notícias locais. Entretanto, aquelas que se comprometem com o jornalismo local, atuam a partir de pautas sugeridas pela própria comunidade, o que demonstra a relação de proximidade com o público, uma das características desse tipo de jornalismo.

Outro ponto interessante trazido pelas pesquisadoras diz respeito à sustentabilidade dos veículos locais. A pesquisadora Katia Flora dos Reis, moradora de São Bernardo do Campo, percebeu durante sua investigação que os efeitos econômicos causados pela pandemia da Covid-19 também influenciaram na continuidade do trabalho desses comunicadores. Isso porque alguns anunciantes precisaram suspender o serviço, e como essa é a fonte de renda de muitos veículos, isso acabou impactando diretamente na produção de conteúdo.

Não posso deixar de dizer que nós vivemos um momento de alto volume de informação e, principalmente, de propagação de muita notícia falsa. Especialistas dizem que vivemos uma infodemia, e essa crise de informação também é fomentada e gerada por veículos locais, administrados por pessoas com intenções bem estabelecidas.

Lidar com esse tipo de veículo, que tem crescido bastante nos últimos anos nas redes sociais, também foi um desafio durante o processo de pesquisa. Todos os meios mapeados passaram por uma “checagem editorial”, para que fosse possível identificar os produtores de conteúdos reais e os criadores de fake news. 

Nesse sentido, um dos desafios encontrados pela pesquisadora Jessica Suellen Palmeira Silva, moradora de Mogi das Cruzes, foi o de conseguir as informações necessárias para o levantamento, pois, parte dos veículos, estimulada pela onda de notícias falsas, também desconfiou da credibilidade da nossa pesquisa.

Agora que já te contei um pouco sobre o nosso processo de pesquisa e os desafios encontrados ao longo desse trabalho, quero te convidar para o lançamento do Mapa do Jornalismo Local, que será feito de forma virtual durante o próximo Redação Aberta, no dia 07 de dezembro, das 10h às 11h30, via zoom!

6 dicas para mapear os veículos de comunicação no seu território

  1. Faça buscas nas redes sociais usando como palavra-chave ou hashtag o nome do seu município ou bairro;
  2. Use a ferramenta de notícias do Google para encontrar conteúdos produzidos por veículos locais;
  3. Procure nas redes sociais páginas de associação de moradores e veja se há compartilhamento de notícias produzidas por veículos locais;
  4. Converse com lideranças comunitárias e com integrantes de movimentos sociais;
  5. Quando encontrar um veículo local, verifique se o conteúdo publicado é noticioso e se foi produzido pelo próprio veículo;
  6. Cuidado com os criadores de fake news, na internet existem muitos sites e contas de redes sociais que tem como objetivo produzir e divulgar notícias falsas.

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